
O Facility Management avança de uma função tradicionalmente associada à gestão de custos para assumir um papel cada vez mais estratégico nas organizações. Essa foi a mensagem que atravessou a programação do IFMA Global LATAM 2026, realizado em 3 de setembro, na Cidade do México.
Organizado pela IFMA, o encontro reuniu profissionais e lideranças de diferentes países para debater as transformações que estão redesenhando a gestão do ambiente construído. BIM, inteligência artificial, manutenção preditiva, sustentabilidade, experiência dos ocupantes, continuidade dos negócios e desenvolvimento humano estiveram entre os principais assuntos abordados.
Mais do que apresentar novas tecnologias, a programação mostrou que o futuro do setor dependerá da capacidade dos profissionais de transformar informações em decisões, integrar pessoas e sistemas e demonstrar o valor gerado pelo FM para os negócios.
Lideranças aproximam FM da estratégia empresarial
O evento foi aberto com o painel de Ilse Serani, Luis Ronca, Esteban Martínez e Sergio Padilla, que reuniu perspectivas de diferentes segmentos para discutir a evolução do Facility Management. O debate mostrou como a área conecta sustentabilidade, operação, pessoas e estratégia empresarial, deixando de atuar apenas na retaguarda para participar de decisões que influenciam produtividade, continuidade, reputação, custos e resultados.
Ao reunir lideranças seniores de diferentes mercados, a conversa evidenciou que o FM precisa compreender os objetivos da organização e traduzir sua atuação em indicadores relevantes para a alta gestão. Isso significa mostrar não apenas quanto custa operar um edifício, mas quais riscos são evitados, quais oportunidades são criadas e como os ambientes apoiam o crescimento do negócio.
Três tendências direcionam o futuro do FM
Rafael Berumen apresentou algumas das tendências mais relevantes para o Facility Management, organizadas em três grandes frentes. A primeira envolve a gestão orientada por dados, a inteligência artificial e a manutenção preditiva. O avanço dessas tecnologias permite substituir decisões baseadas apenas na experiência ou na reação a falhas por modelos capazes de reconhecer padrões, antecipar problemas e direcionar recursos com maior precisão.
A segunda tendência reúne ESG, eficiência energética e descarbonização. Pressões ambientais, regulatórias e econômicas estão aumentando a responsabilidade dos gestores sobre consumo, emissões e desempenho operacional dos ativos. Já a terceira está relacionada à experiência dos ocupantes e à otimização dos espaços. Em um contexto de mudanças na forma de trabalhar e utilizar os edifícios, compreender a ocupação real e as necessidades dos usuários tornou-se indispensável para definir layouts, serviços e investimentos.
Juntas, essas tendências revelam um setor mais orientado por evidências, comprometido com a sustentabilidade e atento ao impacto dos ambientes sobre as pessoas. Mais do que tecnologia, essa transformação representa uma mudança na forma de gerir: menos reação, mais prevenção; menos achismo, mais dados para decisões melhores.
BIM transforma informação em valor para todo o ciclo de vida
Na palestra “BIM: onde as decisões de hoje constroem o valor de amanhã”, Dulce Barocio explorou a conexão estratégica entre Building Information Modeling e Facility Management. A apresentação mostrou que as informações produzidas durante as etapas de projeto e construção não deveriam perder valor após a entrega do empreendimento. Quando organizados e incorporados à gestão da operação, esses dados podem apoiar decisões relacionadas a investimentos, despesas operacionais, manutenção, sustentabilidade e desempenho dos ativos.
A integração entre BIM e FM permite acompanhar o edifício durante todo o seu ciclo de vida e oferece aos gestores uma base mais consistente para avaliar intervenções, antecipar necessidades e utilizar melhor os recursos. A mensagem central foi clara: as decisões tomadas no início de um projeto têm impacto direto na eficiência e no valor que o ativo será capaz de gerar no futuro.
Sustentabilidade precisa gerar resultados mensuráveis
Esteban Martínez provocou o público com a palestra “O edifício mais sustentável não é o que tem mais certificações: é o que gera mais valor para as pessoas, o negócio e o planeta”. O conteúdo ampliou a discussão sobre sustentabilidade ao defender que certificações são importantes, mas não devem ser tratadas como a finalidade de uma estratégia ambiental. Um edifício verdadeiramente sustentável precisa apresentar resultados concretos, como retorno sobre o investimento, proteção do fluxo de caixa, melhor desempenho durante seu ciclo de vida e satisfação dos usuários. A sustentabilidade, nessa perspectiva, deixa de ser medida apenas pelo número de selos conquistados e passa a considerar a capacidade do ativo de consumir menos recursos, reduzir riscos, preservar seu valor e atender adequadamente às necessidades das pessoas.
A reflexão aproxima definitivamente a agenda ambiental da gestão econômica dos empreendimentos. Afinal, uma solução só pode ser considerada sustentável quando seus benefícios permanecem ao longo do tempo e são percebidos pelo negócio, pela sociedade e pelo planeta. Também é fundamental lembrar que certificações de sustentabilidade precisam ter propósito. Certificar apenas para obter um selo não deve ser o objetivo. Antes de buscar uma certificação, é preciso compreender as necessidades do edifício, das pessoas e da operação, além dos resultados ambientais e sociais que se pretende alcançar. O selo deve ser consequência de uma estratégia sustentável, e não o ponto de partida.
Pessoas e tecnologia no workplace de alto desempenho
Cibele Verasto abordou o tema “Facilities & Workplace de alto rendimento: onde convergem as pessoas e a tecnologia” e colocou a experiência humana no centro da transformação dos ambientes de trabalho. Tecnologias como inteligência artificial, Internet das Coisas, automação, manutenção preditiva e análise de dados estão ampliando a capacidade de monitoramento e decisão das áreas de FM. Entretanto, a apresentação ressaltou que o foco inicial são as pessoas, não somente o cliente final, mas primeiramente a escuta da própria equipe e foco em ampliar carreiras preparando talentos.

Ao lado da inovação tecnológica, hospitalidade, pertencimento, liderança empática e desenvolvimento das equipes foram apresentados como fatores essenciais para a construção de ambientes de alto desempenho. O workplace precisa contribuir para que pessoas, cultura e negócios prosperem conjuntamente. A abordagem reforçou que não basta tornar os edifícios mais inteligentes. É necessário garantir que a inteligência aplicada aos espaços seja percebida pelos usuários na forma de conforto, acolhimento, produtividade e melhores experiências. E isso somente é possível diante da equipe verdadeiramente engajada, se sentindo pertencente e confiante perante uma liderança legítima e empática.
Da emergência à continuidade dos negócios
A programação também incluiu o workshop interativo “Minuto Zero: da emergência à continuidade dos negócios”, conduzido por Ilse Serani, José Díaz e Devin Cammack. Divididos em equipes, os participantes trabalharam com diferentes cenários de emergência e discutiram como reagiriam diante de cada situação. A dinâmica mostrou que crises raramente podem ser resolvidas a partir de uma única resposta ou perspectiva.
Gerenciar uma ocorrência exige coordenação, comunicação, rapidez, capacidade de adaptação e compreensão dos impactos sobre pessoas, instalações e operações. O exercício estimulou a solução criativa de problemas e a tomada de decisão sob pressão, além de reforçar a importância da preparação prévia. A continuidade do negócio começa antes da emergência. Ela depende de planos testados, responsabilidades definidas, informações confiáveis e equipes preparadas para lidar com situações que nem sempre seguirão o roteiro previsto.
Inteligência humana e artificial criam resultados exponenciais
Ao discutir o futuro do Facility Management, Luis Ronca destacou a transição do setor de centro de custos para parceiro estratégico das organizações. Inteligência artificial, dados e edifícios inteligentes terão participação crescente nessa transformação. No entanto, a tecnologia, isoladamente, não será capaz de produzir os resultados esperados. Será necessário investir nas pessoas responsáveis por interpretar informações, conectar soluções e direcionar os recursos tecnológicos.
Ronca apresentou o conceito “HI + AI = EI” — Human Intelligence + Artificial Intelligence = Exponential Intelligence, ou inteligência humana somada à inteligência artificial resultando em inteligência exponencial. A ideia posiciona o profissional de FM como um orquestrador das tecnologias. Julgamento, criatividade, curiosidade, propósito e capacidade de criar conexões tornam-se competências ainda mais valiosas em um ambiente marcado pela automação. O futuro do trabalho, portanto, não será definido apenas pelo que a inteligência artificial consegue fazer, mas pela preparação das pessoas para utilizá-la de forma crítica, responsável e capaz de criar possibilidades.
Facilities Management, de suporte a parceiro estratégico
Nas suas palavras de encerramento, Norma Pleitez - presidente do IFMA Mexico Chapter, mencionou que depois de tantas discussões sobre tecnologia, inteligência artificial, sustentabilidade, experiência das pessoas, dados e novas formas de gerir os ambientes, uma conclusão se torna cada vez mais evidente: Facilities Management deixou de ser apenas uma área de suporte. Hoje, o FM ocupa uma posição muito mais estratégica dentro das organizações. As decisões sobre espaços, infraestrutura, tecnologia, sustentabilidade, custos e experiência das pessoas têm impacto direto na produtividade, na cultura, na eficiência operacional e, consequentemente, nos resultados do negócio. O papel do Facility Manager também evoluiu. Já não somos apenas responsáveis por garantir que tudo funcione. Precisamos interpretar dados, antecipar necessidades, entender o negócio e contribuir para decisões que conectem pessoas, espaços, recursos e estratégia. Como foi ressaltado no encerramento do evento, depois de todas as apresentações, ficou ainda mais claro: Facilities não está apenas apoiando o negócio. Facilities faz parte da estratégia do negócio.
Uma agenda comum para o Facility Management latino-americano
Ao conectar tecnologia, sustentabilidade, desempenho, experiência humana e resiliência, o IFMA Global LATAM evidenciou uma agenda comum para o desenvolvimento do setor na região. Os debates mostraram que o Facility Management ganha relevância quando consegue integrar conhecimentos técnicos e visão de negócio, utilizando dados para fundamentar decisões e colocando as pessoas no centro da operação. A principal conclusão do encontro é que o FM do futuro não será apenas o responsável por manter os edifícios funcionando. Será o agente capaz de transformar espaços, informações, tecnologias e equipes em valor para as pessoas, para as organizações e para o planeta.