Por Fernanda Carvalho
| Fernanda Carvalho, Facilities e Workplace Experience no Mercado Livre |
Minha trajetória profissional começou na Arquitetura e Urbanismo, mas foi dentro das operações que compreendi a verdadeira dimensão de Facilities Management. Passei por ambientes hospitalares, industriais, hoteleiros e corporativos, enfrentando realidades, estruturas e níveis de complexidade muito diferentes. Em cada um deles, aprendi que Facilities não é uma atividade que possa ser compreendida apenas por meio de conceitos.
Minha carreira teve início na Santa Casa de São Paulo, como técnica em obras. Aos poucos, fui conquistando espaço e assumindo responsabilidades relacionadas a compras, manutenção, Facilities e conservação patrimonial. Mais tarde, atuei como site manager e PMO na área de healthcare da Siemens, fui gerente de manutenção em um resort e avancei para a gestão de operações. Também vivi os desafios de liderar Facilities em empresas de outros segmentos, ampliando minha percepção sobre o impacto da área nos negócios e na experiência das pessoas. E hoje estou á frente de uma operação de um grande ecossistema de tecnologia voltado para o comércio eletrônico e serviços financeiros.
Essa diversidade de experiências continua sendo fundamental para a minha formação. Cada ambiente me apresentou uma operação diferente. Em um hospital, determinadas decisões estão diretamente relacionadas à segurança, à continuidade e ao cuidado com a vida. Na indústria, confiabilidade, produtividade e controle assumem um peso enorme. Na hotelaria, a operação precisa funcionar com eficiência e, ao mesmo tempo, permanecer praticamente invisível para proporcionar uma boa experiência. No ambiente corporativo, Facilities conecta pessoas, espaços, serviços, tecnologia, custos e estratégia. Os segmentos mudam, mas existe algo que permanece, o profissional precisa compreender rapidamente o contexto, identificar riscos, organizar prioridades e tomar decisões que nem sempre vêm acompanhadas de respostas prontas.
Foi justamente essa trajetória que me fez refletir sobre uma necessidade cada vez mais evidente no mercado. Temos profissionais que conhecem os conceitos, dominam os principais termos da área e já participaram de treinamentos, cursos e eventos. Ainda assim, quando se deparam com uma situação concreta, muitas vezes surge a pergunta: “E agora, como eu faço isso na minha operação?”
Essa dúvida não revela falta de capacidade ou de empenho. Ela mostra que existe uma distância entre conhecer um assunto e conseguir aplicá-lo com segurança. E é justamente nesse espaço entre saber e fazer que acredito estar um dos maiores desafios do desenvolvimento profissional em FM.
O conhecimento técnico é indispensável. Precisamos compreender contratos, indicadores, níveis de serviço, manutenção, limpeza, segurança, alimentação, sustentabilidade, experiência do usuário, gestão de fornecedores, orçamento e tantas outras disciplinas. Mas a atuação em Facilities exige algo além, que é a capacidade de interpretação. Uma mesma solução não funciona da mesma maneira em todas as organizações. Uma prática bem-sucedida em um escritório pode ser inviável em um hospital. Um indicador importante para uma indústria pode não traduzir as prioridades de uma operação de varejo. Um excelente escopo pode fracassar se não considerar a maturidade da empresa, a cultura interna, o perfil dos usuários ou a capacidade de gestão do contrato.
Por isso, desenvolver um profissional não significa apenas transmitir informações. Significa ajudá-lo a construir critérios para analisar a realidade, fazer as perguntas certas e sustentar suas decisões. Na prática, boa parte das dificuldades começa antes mesmo da execução. É preciso entender qual problema realmente precisa ser resolvido. É necessário separar urgência de prioridade, expectativa de necessidade e percepção de evidência. Também é preciso reconhecer que Facilities não existe de forma isolada; cada decisão pode afetar pessoas, orçamento, produtividade, imagem, riscos e continuidade do negócio. Essa compreensão não nasce de uma fórmula. Ela se desenvolve com repertório, experiência, reflexão e troca.
Foi a partir dessa percepção que criei o Facilities Management Descomplicado. Não o vejo como mais um curso técnico nem como uma formação que pretende substituir os excelentes programas já disponíveis no mercado. A proposta é diferente, é oferecer uma base de conhecimento acessível e, principalmente, aproximar o profissional da aplicação prática. A jornada começa pelos fundamentos da área, seus conceitos, campos de atuação e possibilidades de formação. Em seguida, enfrenta aquilo que chamo de “choque de realidade”, que é o momento em que o profissional encontra o ritmo da operação, as demandas simultâneas, os imprevistos e a sensação de que tudo precisa ser resolvido imediatamente.
É nesse cenário que se torna necessário aprender a enxergar a operação como um todo. Antes de implantar sistemas sofisticados ou criar dezenas de indicadores, muitas vezes é preciso organizar a rotina, aproximar-se das equipes, conhecer os espaços, compreender os contratos, ouvir os usuários e identificar onde estão os maiores riscos. A organização não precisa começar de maneira complicada. Ela pode nascer de perguntas simples. O que está sob minha responsabilidade? Quais são os serviços mais críticos? Onde estão as informações? Como as demandas chegam? O que depende de terceiros? Quais falhas se repetem? O que pode interromper a operação?
Quando esse olhar se desenvolve, começa uma virada importante. O profissional deixa de atuar apenas como alguém que reage aos problemas e passa a construir controles, acompanhar indicadores e antecipar situações. Ele começa a sair do papel de “resolvedor de urgências” para assumir uma posição mais estratégica. Essa transformação também exige posicionamento. Não basta executar bem se ninguém compreende o valor do que está sendo entregue. O profissional de Facilities precisa saber comunicar riscos, justificar investimentos, apresentar resultados, estabelecer limites, negociar prioridades e demonstrar como a área contribui para os objetivos da organização.
Foi por isso que incluí na jornada temas como comunicação estratégica, protagonismo e networking, além de conteúdos sobre os principais termos utilizados no universo de Facilities e orientações para a construção de planos de ação. O e-book Descomplicando o Facilities segue a mesma proposta, tornar o conhecimento mais acessível e conectado ao cotidiano de quem trabalha na área. Mas, para mim, o conteúdo é apenas o ponto de partida. A maior possibilidade de transformação está na troca individual proporcionada pela mentoria. É nesse espaço que conseguimos partir da realidade de cada profissional, porque duas pessoas podem ter o mesmo cargo e enfrentar desafios completamente diferentes.
Há também quem tenha conhecimento e experiência, mas não consiga comunicar o próprio valor ou identificar o próximo passo da carreira. Nessas situações, uma resposta genérica raramente é suficiente. É preciso compreender o contexto, avaliar alternativas e pensar junto. A lógica da mentoria está muito próxima de uma pergunta direta: “Mostre-me o seu problema e vamos analisar como um profissional de Facilities pode enfrentá-lo.” Não se trata de oferecer respostas prontas nem de decidir pelo outro. Trata-se de compartilhar experiências, provocar reflexões e ajudar o profissional a construir o próprio raciocínio. A boa mentoria não cria dependência. Ao contrário, amplia a autonomia e a segurança para decidir.
Vejo essa abordagem como uma espécie de consultoria voltada não à empresa, mas ao desenvolvimento do profissional. O objeto da análise pode até ser uma operação, um contrato ou um fornecedor, mas o resultado mais importante está na pessoa, em sua capacidade de compreender o problema, estruturar uma resposta e agir com mais clareza.
Ao longo da minha carreira, aprendi muito com cursos, livros e especializações. Mas alguns dos aprendizados mais importantes surgiram nas conversas com profissionais mais experientes, nos erros que precisei corrigir, nos projetos que exigiram mudança de rota e nas decisões que não poderiam ser adiadas até que todas as informações estivessem disponíveis. A operação ensina, mas nem sempre ensina de maneira gentil. Ter alguém com quem discutir uma situação, confrontar uma percepção ou avaliar possibilidades pode encurtar caminhos e evitar que o profissional enfrente sozinho dificuldades que outras pessoas já viveram. Isso me leva a uma reflexão que considero importante para o futuro da área: em um campo tão operacional, abrangente e dinâmico, apenas disponibilizar conteúdo é suficiente para desenvolver profissionais?
Acredito que o conhecimento continuará sendo a base. No entanto, precisamos criar mais espaços de orientação individual, troca de experiências e desenvolvimento apoiado em desafios reais. Facilities necessita de profissionais tecnicamente preparados, mas também capazes de pensar, interpretar, comunicar, negociar e decidir. Cursos podem ensinar conceitos e apresentar métodos. A experiência mostra as nuances. A mentoria ajuda a conectar essas duas dimensões.
Foi dessa convicção que nasceu o Facilities Management Descomplicado, não como um ponto de chegada, mas como o início de uma jornada de desenvolvimento. Uma jornada na qual o profissional amplia sua base de conhecimento, olha para a própria realidade e encontra apoio para transformar aquilo que sabe em decisões mais conscientes e ações que realmente façam diferença na operação.
Porque, no fim, o verdadeiro desenvolvimento acontece quando o conhecimento deixa de ser apenas informação e passa a orientar a prática. Vamos conversar? [email protected]