Por Redação

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O debate sobre o retorno ao escritório entrou em uma nova fase. Enquanto algumas das maiores organizações do mundo reforçam a presença diária, outras mantêm a flexibilidade geográfica como parte estrutural de sua operação. A divergência mostra que o mercado não caminha para um único modelo e impõe desafios diferentes para as áreas de Workplace, Facilities e Real Estate.
Amazon e JPMorgan Chase estão entre os casos mais visíveis de retomada do presencial integral. As políticas adotadas pelas companhias passaram a exigir cinco dias por semana no escritório e foram justificadas por argumentos recorrentes: fortalecimento da cultura, aprendizagem, colaboração e maior velocidade na tomada de decisões.
No Brasil, o Nubank também ampliou a presença física. Depois de cinco anos em um modelo prioritariamente remoto, a empresa iniciou em julho de 2026 a transição para um regime híbrido no qual aproximadamente 70% das equipes devem comparecer a um escritório designado por pelo menos dois dias determinados por semana. A previsão é elevar a frequência mínima para três dias semanais em janeiro de 2027, condicionada à avaliação do modelo e das necessidades do negócio.
Na direção oposta, Atlassian, Spotify, Dropbox, Airbnb e GitLab continuam estruturando o trabalho em torno de diferentes graus de liberdade geográfica. Não se trata apenas de permitir alguns dias em casa. Em determinadas companhias, a distribuição das equipes passou a orientar o recrutamento, a documentação de processos, a tecnologia, os encontros presenciais e o próprio desenho dos escritórios.
A coexistência desses movimentos enfraquece a ideia de que o mercado estaria simplesmente retornando ao padrão anterior à pandemia. Um estudo internacional com 68 organizações, voltado principalmente a empresas de tecnologia, identificou que 85% permitiam alguma forma de trabalho híbrido. Metade priorizava atividades no escritório, mas apenas quatro haviam regressado ao presencial integral. O arranjo mais frequente era de três dias por semana.
O cenário indica menos uma disputa entre dois modelos consolidados e mais um período de diferenciação. Há empresas concentrando novamente as pessoas em seus edifícios, enquanto outras tratam a flexibilidade como parte da proposta de emprego e do próprio sistema operacional do negócio. Para Workplace, Facilities e Real Estate, cada escolha produz uma combinação diferente de ocupação, serviços, custos e riscos.
O retorno cresceu, mas não eliminou o híbrido
Em mensagem publicada pela própria companhia, a Amazon informou que a presença durante cinco dias permitiria fortalecer a cultura e simplificar a organização. A regra entrou em vigor em 2 de janeiro de 2025, acompanhada de um trabalho de sua área global de Real Estate e Facilities para acomodar os empregados. No JPMorgan, a convocação dos profissionais híbridos passou a valer em março daquele ano. Segundo a comunicação divulgada pelo banco, mais da metade de seus cerca de 316 mil funcionários já trabalhava integralmente de forma presencial.
No Nubank, a transição para o novo modelo híbrido também produz efeitos sobre a infraestrutura. Além de ampliar e melhorar as sedes de São Paulo, Cidade do México e Bogotá, a empresa anunciou investimentos em novos espaços para equipes específicas em cidades como Campinas, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Algumas funções que exigem pouca ou nenhuma interação com outros times permanecerão em um modelo com presença de uma semana por trimestre.
Esses casos deram visibilidade à ampliação do presencial, mas não constituem uma amostra representativa de todos os empregadores. Empresas financeiras, industriais, de tecnologia e serviços operam com necessidades distintas de supervisão, proteção de dados, atendimento, desenvolvimento de produtos e acesso a equipamentos. Mesmo dentro de uma organização, áreas comerciais, laboratórios, funções administrativas e equipes digitais podem receber políticas diferentes.
Os dados de ocupação reforçam essa composição. O relatório 2026 Global Workplace & Occupancy Insights, da CBRE, mostra que a utilização média dos escritórios analisados chegou a 53%, ante 38% em 2024 e 35% em 2023. É uma recuperação expressiva, mas ainda distante de um cenário no qual todos os postos sejam ocupados diariamente.
O mesmo levantamento informa que elevar a utilização está entre os objetivos de 81% das equipes de Corporate Real Estate pesquisadas e que 83% já acompanham esse indicador. A combinação é reveladora: os escritórios estão mais frequentados, mas continuam sendo administrados em um ambiente de capacidade ociosa, variação entre dias da semana e diferenças relevantes entre localidades.
Flexibilidade também exige infraestrutura
A permanência dos modelos flexíveis não significa ausência de espaços físicos. A política Team Anywhere da Atlassian permite que a maioria dos profissionais trabalhe fora de uma localização corporativa fixa, preservadas as restrições de determinadas funções. A empresa mantém escritórios e promove encontros presenciais, mas não organiza toda a rotina em torno da ida diária ao edifício.
O Spotify segue lógica semelhante. Em sua página sobre cultura, a companhia afirma que o programa Work From Anywhere combina flexibilidade com momentos intencionais de colaboração presencial. Os escritórios são apresentados como hubs para interação, e não como o local obrigatório para todas as tarefas.
Na Airbnb, a política vigente permite trabalhar em casa ou no escritório, morar em diferentes localidades dentro do país de contratação e atuar temporariamente em outros países, quando a legislação autoriza. A estrutura também prevê reuniões periódicas das equipes. Já a GitLab se define como uma empresa integralmente remota e apoia sua operação em documentação acessível, processos assíncronos e encontros virtuais.
Esses exemplos mostram que flexibilidade não equivale a improvisação. Ela desloca parte do investimento do posto fixo para plataformas digitais, equipamentos residenciais, segurança da informação, viagens, encontros programados e espaços capazes de receber públicos variáveis. O edifício pode ter menor frequência cotidiana, mas enfrentar picos quando equipes distribuídas se reúnem para planejamento, integração ou desenvolvimento de projetos.
Indicadores diferentes para estratégias diferentes
A divergência entre políticas também reduz a utilidade de comparar empresas apenas pelo número de dias no escritório. Em operações presenciais, ocupação, custo por posto, disponibilidade de ativos, filas, consumo por usuário e desempenho dos serviços ajudam a mostrar se o edifício suporta a demanda criada pela política corporativa.
Nos ambientes híbridos, ganham relevância a variação diária de presença, a taxa de uso de salas, o percentual de reservas não utilizadas, a relação entre postos e usuários, o custo por dia efetivamente ocupado e a capacidade de absorver picos. Em organizações distribuídas, o custo do portfólio físico precisa ser analisado em conjunto com viagens, encontros, coworkings, tecnologia e apoio ao trabalho remoto.
A experiência dos usuários também exige contexto. Uma frequência baixa pode representar inadequação do escritório, mas pode ser coerente com uma empresa desenhada para operar remotamente. Da mesma forma, um prédio cheio demonstra adesão à regra de presença, mas não comprova, por si só, aumento de produtividade, colaboração ou inovação. Esses resultados dependem de indicadores do negócio e de pessoas que não estão sob controle exclusivo das áreas imobiliárias e operacionais.
Por isso, o papel de Workplace se aproxima cada vez mais da tradução de uma estratégia empresarial em ambientes, serviços e dados. O desenho físico permanece relevante, mas passa a conviver com análises de demanda, comportamento de uso, experiência, portfólio, tecnologia e capacidade de adaptação.
Essa adaptação também influencia decisões de longo prazo. Contratos imobiliários, reformas e sistemas prediais atravessam ciclos mais extensos do que muitas políticas de trabalho. Layouts modulares, infraestrutura tecnológica distribuída, ambientes com diferentes capacidades e setores que possam ser ativados separadamente ampliam as possibilidades de mudança sem exigir uma reconstrução completa a cada revisão da jornada.
Amazon, JPMorgan, Nubank, Atlassian, Spotify e GitLab não apontam para uma resposta única. Representam estratégias construídas a partir de culturas, atividades, mercados de trabalho e estruturas operacionais diferentes. O debate que chega aos edifícios, portanto, deixou de caber apenas na contagem de dias presenciais. A questão passa a ser se cada portfólio consegue sustentar, com custos e níveis de serviço verificáveis, a forma como a organização decidiu trabalhar e se continuará capaz de fazê-lo quando essa decisão mudar.
Como construímos este material
Esta matéria foi elaborada com informações públicas divulgadas por Amazon, Nubank, Atlassian, Spotify, Airbnb e GitLab, dados do relatório 2026 Global Workplace & Occupancy Insights, da CBRE, cobertura jornalística sobre o JPMorgan Chase e estudos acadêmicos relacionados às políticas de trabalho e à operação de edifícios híbridos. As políticas corporativas foram verificadas em fontes disponíveis até agosto de 2026. Caso identifique alguma inconsistência ou queira sugerir novas pautas, entre em contato pelo e-mail [email protected].