O espaço de trabalho não começa na porta do escritório

Para Marcos Aldrighi, sócio-diretor da Piratininga Arquitetos Associados, projetos precisam integrar pessoas, tecnologia, mobilidade e qualidade urbana

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Marcos Aldrighi, sócio-diretor da Piratininga Arquitetos Associados


A arquitetura corporativa passou por uma profunda transformação nas últimas décadas. Antes vista, muitas vezes, como uma atividade limitada à ambientação ou à organização interna dos escritórios, hoje assume um papel estratégico na criação de ambientes que favorecem o bem-estar, a produtividade, a convivência e a identidade das organizações.

Essa evolução é destacada pelo arquiteto Marcos Aldrighi, sócio-diretor da Piratininga Arquitetos Associados (PAA). Fundado em 1984, o escritório atua nas áreas de arquitetura, urbanismo e espaços de trabalho, buscando integrar diferentes escalas e disciplinas em seus projetos. Atualmente, a empresa é liderada por Aldrighi e pelos arquitetos Renata Semin e João Paulo Beugger.

Para Aldrighi, os fundamentos de um projeto corporativo são os mesmos que orientam a arquitetura em outras tipologias. “Organizar os espaços de trabalho nem sempre foi reconhecido como um trabalho relevante da arquitetura. Mas tornar os ambientes habitáveis, compreender os fluxos, a relação com a luz e criar condições de bem-estar e engajamento sempre foram questões fundamentais de projeto”, afirma.


Diferentes escalas, um mesmo olhar


A atuação simultânea da Piratininga em arquitetura, urbanismo e ambientes corporativos permite que conceitos normalmente relacionados às cidades também sejam aplicados ao interior dos edifícios. Segundo Aldrighi, mesmo em um escritório de 500 ou 700 metros quadrados é possível pensar em questões semelhantes às do planejamento urbano, onde estarão os pontos de encontro, quais áreas exigem concentração, como serão organizados os espaços compartilhados e de que maneira as pessoas circularão pelo ambiente.

Essa visão amplia o conceito de workplace. O espaço de trabalho não começa necessariamente na recepção da empresa, mas no deslocamento do profissional, na acessibilidade, na mobilidade urbana e na qualidade dos espaços públicos que conectam sua casa ao trabalho. “Não basta ter uma boa casa, um espaço adequado para trabalhar ou um lugar agradável para se encontrar. A cidade precisa coordenar tudo isso por meio da mobilidade, das praças, das calçadas e dos espaços públicos”, ressalta.

Na avaliação do arquiteto, São Paulo simboliza bem essa contradição. Ao mesmo tempo que reúne profissionais qualificados, diversidade de atividades e grande capacidade de realização, a cidade ainda convive com dificuldades básicas de acessibilidade e qualidade urbana. “Uma grande transformação para a cidade seria simplesmente termos calçadas adequadas, que permitissem às pessoas caminhar, empurrar um carrinho de bebê ou se deslocar em uma cadeira de rodas”, exemplifica.


Tecnologia facilita processos, mas não substitui o pensamento


A incorporação de novas tecnologias também alterou profundamente a maneira de projetar. Sistemas de automação, novas ferramentas de comunicação, BIM e inteligência artificial ampliaram a produtividade e trouxeram mais agilidade aos escritórios de arquitetura.

Entretanto, Aldrighi alerta que essas ferramentas não substituem a capacidade humana de analisar problemas, compatibilizar disciplinas e tomar decisões. “O projeto não é apenas um papel ou uma imagem. Ele precisa dialogar com todas as disciplinas, ser coerente e oferecer condições para que aquilo seja efetivamente construído”, afirma.

Para o arquiteto, o capital humano continua sendo o principal ativo dos escritórios. São necessários profissionais capacitados e envolvidos para transformar ferramentas tecnológicas em soluções consistentes.

Essa realidade torna ainda mais preocupante a desvalorização financeira dos projetos. Segundo Aldrighi, tornou-se comum que escritórios sejam convidados a desenvolver estudos, propostas de ocupação e imagens em prazos muito curtos, sem remuneração e sem garantia de contratação. A tecnologia agiliza a produção, mas não elimina o tempo de reflexão, conhecimento e exeperiência necessários ao projeto”, defende.


Resiliência climática ganha peso nas decisões de projetos


As mudanças climáticas também começam a influenciar as decisões relacionadas à arquitetura e ao urbanismo. Aldrighi observa que, nos últimos anos, tanto a iniciativa privada quanto o Poder Público passaram a demonstrar maior atenção ao tema, especialmente nos projetos urbanos. Entre as principais preocupações estão a gestão das águas, a criação de áreas capazes de absorver a chuva, a redução dos riscos de inundação, a escolha da vegetação, o aproveitamento da topografia e a reutilização de recursos.

Nas edificações, o debate envolve os materiais empregados, os sistemas construtivos e o consumo de energia e água. Embora reconheça avanços, o arquiteto avalia que essa preocupação ainda não está incorporada de forma consistente pela maioria dos contratantes. “Existe uma parte do mercado sensível a essas questões, mas ainda estamos construindo essa consciência. A resiliência precisa deixar de ser apenas um discurso e se tornar um elemento efetivo na tomada de decisão dos projetos. Para a PAA, sustentabilidade não é uma camada adicional ao projeto, mas um princípio que orienta as decisões de arquitetura; da implantação e relação com o entorno à eficiência energética, ao uso responsável dos recursos, à vegetação, à topografia e à escolha dos sistemas construtivos; contribuindo para edifícios mais resilientes e duradouros.”, pontua.

Ao conectar arquitetura, workplace e planejamento urbano, Aldrighi reforça que a qualidade dos ambientes corporativos depende de uma visão mais ampla. Em um cenário marcado pelo trabalho híbrido, pelo avanço tecnológico e pelas mudanças climáticas, projetar significa compreender não apenas o espaço físico, mas todo o sistema de relações que permite às pessoas viver, circular e trabalhar melhor.


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