Data centers nos planos presidenciais: as propostas para energia e expansão

Cinco candidatos defendem atrair novos projetos, mas apresentam caminhos diferentes para incentivos, contrapartidas ambientais e expansão regional em um setor condicionado por energia, água e transmissão

Por Redação

Expansão dos data centers entrou nos programas presidenciais de 2026 em meio à discussão sobre conexão elétrica, incentivos, uso de água e novas exigências para a infraestrutura digital brasileira. Foto: https://depositphotos.com/br/427775246


Os programas de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) convergem em uma ambição: ampliar a presença de data centers no Brasil. A concordância termina quando entram em cena as condições para atrair os investimentos e a infraestrutura necessária para colocá-los em operação.

Para quem projeta, implanta ou opera essas instalações, o debate ultrapassa a política digital. Cada escolha pode alterar a seleção de terrenos, o cronograma de conexão, as soluções de refrigeração, a contratação de energia e a cadeia de fornecedores. Há, porém, uma restrição comum: incentivos e simplificação administrativa não substituem linhas de transmissão, subestações e capacidade na rede.

Projetos avançam antes da troca de governo
Dados do Plano Decenal de Expansão de Energia 2035 indicam que os processos de conexão de grandes cargas à Rede Básica somavam 54,2 GW até 2038, dos quais 26,3 GW correspondiam a data centers. No Nordeste, a EPE identificou interesse de conexão associado a 30 projetos, somando 8,3 GW. Isso não significa que todos sairão do papel: cada empreendimento ainda depende de capacidade disponível na rede e, em alguns casos, de reforços na infraestrutura elétrica.

O próximo governo também poderá encontrar parte das regras de incentivo já definida. Em 1º de setembro, o Senado aprovou o PL 278/2026, que cria o Redata, regime especial de tributação para data centers com incentivos e contrapartidas. Na prática, as propostas dos candidatos poderão partir de um marco já aprovado pelo Congresso, e não de uma folha em branco.

Incentivos com contrapartidas ou menos barreiras
O programa de governo de Lula condiciona o estímulo a data centers e serviços de nuvem a salvaguardas socioambientais. Entre os pontos mencionados estão eficiência energética, fontes renováveis, impactos sobre energia, água e comunidades, uso de produtos e serviços nacionais e destinação de parte da capacidade computacional ao mercado brasileiro. A proposta aproxima a atração de capital de objetivos ambientais e de política industrial.

Flávio Bolsonaro também propõe, em seu programa de governo registrado na Justiça Eleitoral, transformar o país em polo internacional de data centers sustentáveis, com ênfase na redução de barreiras e do custo da eletricidade. O programa cita revisão de normas e armazenamento de energia. Essas soluções podem equilibrar oferta e consumo, mas não eliminam a necessidade de conexão nem asseguram sozinhas o fornecimento contínuo.

Romeu Zema concentra a estratégia apresentada em seu programa de governo na simplificação regulatória, no investimento privado e na cautela diante de novas regras para inteligência artificial. O programa dá menos peso a contrapartidas e mais à redução de burocracia. O efeito sobre prazo e custo dependeria das medidas adotadas e dos processos atingidos.

Desenvolvimento regional encontra limites físicos
O programa de Ronaldo Caiado combina ambiente tributário competitivo com energia limpa, eficiência no uso da água, proteção de dados e formação de profissionais nas regiões receptoras. São condicionantes com reflexos operacionais distintos: metas hídricas influenciam a seleção de sistemas de rejeição de calor, enquanto a disponibilidade de mão de obra afeta implantação, manutenção e resposta a incidentes. O programa, contudo, não permite antecipar como esses critérios seriam medidos ou fiscalizados.

Renan Santos vincula, em seu programa de governo, os investimentos a zonas econômicas especiais, sobretudo no Nordeste, e propõe transformar o Brasil em exportador de capacidade computacional. O plano relaciona os novos polos à geração eólica e solar, a linhas de transmissão, ao armazenamento e à ampliação nuclear. A estratégia aproxima consumo eletrointensivo e oferta de energia, mas a viabilidade de cada local continua sujeita à rede, à disponibilidade de água, à conectividade de telecomunicações e ao licenciamento.

A comparação evidencia escolhas diferentes, não resultados garantidos. Suspensão tributária pode reduzir o investimento inicial em equipamentos; exigências de conteúdo nacional podem modificar a cadeia de fornecedores; condicionantes hídricas podem mudar a solução de refrigeração; e novas linhas de transmissão podem abrir alternativas fora dos polos consolidados. A magnitude de cada efeito dependerá da legislação, da regulamentação e da execução dos investimentos.

Também permanecem lacunas. Os programas oferecem pouca precisão sobre cronogramas da rede, prioridade para conexão, divisão dos custos dos reforços e tratamento de projetos que reservam capacidade, mas não avançam.

A eleição definirá parte do ambiente tributário, regulatório e institucional a partir de 2027, mas encontrará medidas já em tramitação ou implementação. A expansão física, porém, seguirá os prazos da engenharia. Entre registrar interesse e energizar um data center existem estudos de acesso, reforços de rede, licenças, contratos, equipamentos e testes. É nessa cadeia, e não apenas na promessa de atrair capital, que os diferentes programas poderão ser comparados depois da campanha.

Nota editorial: a InfraFM verificou as propostas de governo disponibilizadas pela Justiça Eleitoral para as candidaturas à Presidência em 2026. A comparação considera os cinco programas que apresentam propostas explícitas relacionadas à atração, implantação ou expansão de data centers no Brasil. Menções a inteligência artificial, digitalização, computação em nuvem ou soberania tecnológica, sem proposta diretamente relacionada à expansão de data centers, não foram consideradas suficientes para inclusão no recorte. A situação das candidaturas corresponde às informações disponíveis na Justiça Eleitoral na data de publicação.

Como construímos este material
Esta matéria foi elaborada a partir dos programas de governo disponibilizados pela Justiça Eleitoral e de documentos públicos da EPE, do ONS, da CCEE, do Ministério de Minas e Energia, do Ministério da Fazenda, do Senado Federal e da Câmara dos Deputados. Reportagens setoriais e jornalísticas foram consultadas como apoio à comparação. As propostas foram tratadas como compromissos de campanha, e não como efeitos já demonstrados. Caso identifique alguma inconsistência ou queira sugerir novas pautas, entre em contato pelo e-mail [email protected].


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