Corredor de biometano coloca resíduos no centro da estratégia logística

Projeto financiado pelo BNDES para conectar Cubatão, Sumaré e Ribeirão Preto vai além da logística sustentável e antecipa uma discussão que deve alcançar operações urbanas, ativos corporativos e infraestrutura energética das cidades

Por Redação

Corredor de biometano coloca resíduos no centro da estratégia logística

Foto: TransJordano/Divulgação


​Durante anos, resíduos urbanos foram tratados principalmente como um desafio de destinação. O objetivo era reduzir impactos ambientais, cumprir exigências regulatórias e garantir a continuidade dos serviços. A expansão do biometano amplia essa discussão ao transformar o biogás gerado em aterros sanitários, estações de tratamento de esgoto e atividades agroindustriais em combustível para veículos e processos industriais.

É nessa conexão entre resíduo e abastecimento que se insere o corredor de biometano que ligará Cubatão, Sumaré e Ribeirão Preto. O financiamento de R$ 140 milhões aprovado pelo BNDES para a TransJordano inclui a aquisição de 100 caminhões movidos a biometano, a implantação de postos de abastecimento e a ampliação da capacidade de armazenamento do combustível. A iniciativa foi estruturada para criar uma rota entre o litoral paulista, a Região Metropolitana de Campinas e o interior do estado, permitindo a circulação de veículos pesados abastecidos com combustível produzido a partir de resíduos orgânicos.

Segundo reportagem da Exame, o projeto conecta Cubatão, Sumaré e Ribeirão Preto e foi concebido para ampliar a utilização do biometano em operações logísticas de grande porte. O projeto chama atenção porque aborda simultaneamente dois dos principais desafios enfrentados pelo setor. O primeiro é a substituição gradual de combustíveis fósseis em operações logísticas. O segundo é a criação da infraestrutura necessária para sustentar novos modelos de abastecimento.

A infraestrutura como condição para novos combustíveis
A adoção de combustíveis alternativos costuma enfrentar um obstáculo recorrente: a ausência de infraestrutura. A disponibilidade de veículos não garante sua utilização em larga escala quando não existem postos de abastecimento distribuídos ao longo das rotas operacionais.

No caso do corredor paulista, a estratégia foi combinar frota e infraestrutura em um único projeto. A criação dos pontos de abastecimento em Cubatão, Sumaré e Ribeirão Preto busca reduzir uma das principais barreiras para expansão do biometano no transporte rodoviário de cargas.

O tema tem sido acompanhado por organizações internacionais de energia. Em seu relatório Outlook for Biogas and Biomethane: Prospects for Organic Growth, a Agência Internacional de Energia (IEA) destaca que o biometano possui potencial para abastecer veículos pesados em rotas previsíveis, especialmente quando existe infraestrutura dedicada e fornecimento contínuo do combustível.

O mesmo relatório aponta que países como Itália, China e Índia vêm ampliando investimentos na utilização do biometano em aplicações ligadas ao transporte e à indústria, impulsionados pela busca de alternativas aos combustíveis fósseis e pelo aproveitamento energético de resíduos.

Quando resíduos entram na equação logística
O corredor paulista aproxima três cadeias que tradicionalmente operam de forma independente. A gestão de resíduos costuma estar associada ao saneamento e à limpeza urbana. A logística é analisada a partir de custos, produtividade e movimentação de cargas. A energia aparece como insumo contratado para sustentar operações.

O biometano conecta essas agendas ao transformar resíduos em combustível. Na prática, aterros sanitários, estações de tratamento de esgoto e atividades agroindustriais passam a ser observados não apenas pela função de destinação ou tratamento, mas também pela capacidade de gerar energia.

No Brasil, o estudo Panorama de Biometano, da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), identifica potencial significativo para expansão da produção a partir de resíduos urbanos, agroindustriais e agropecuários. O levantamento relaciona o combustível à possibilidade de substituição parcial do diesel em cadeias logísticas e industriais, especialmente em regiões com elevada disponibilidade de matéria-prima.

A discussão ganha relevância em São Paulo por reunir fatores que favorecem esse modelo, como elevada atividade logística, presença de grandes polos industriais, infraestrutura rodoviária consolidada e forte produção agroindustrial.

Reflexos para ativos e operações
A expansão de novas rotas energéticas tende a produzir efeitos que vão além do transporte. Empreendimentos com intensa movimentação de cargas passam a observar com maior atenção a disponibilidade de infraestrutura energética no entorno.

Centros de distribuição, condomínios logísticos, parques industriais e operações de grande porte costumam ser avaliados por fatores como localização, acesso rodoviário e disponibilidade de mão de obra. A presença de corredores de abastecimento para combustíveis alternativos adiciona uma nova variável à análise.

Essa dinâmica também pode influenciar a estruturação de contratos de transporte. Questões relacionadas ao fornecimento de combustível, disponibilidade de abastecimento, metas de emissões e rastreabilidade tendem a ganhar espaço nas negociações entre embarcadores, operadores logísticos e prestadores de serviço.

Outro aspecto relevante é o caráter compartilhado da infraestrutura prevista para o projeto. Segundo informações divulgadas pelo BNDES, os postos de abastecimento poderão atender não apenas a frota da TransJordano, mas também outras empresas interessadas em utilizar biometano. Esse modelo amplia o potencial de utilização da rede e reduz parte dos riscos associados à implantação de novas estruturas de abastecimento.

Uma agenda que conecta energia, saneamento e logística
O avanço do biometano no transporte pesado tem sido tratado por instituições do setor energético como parte de uma agenda mais ampla de aproveitamento de resíduos e diversificação de combustíveis. A Agência Internacional de Energia destaca que o combustível pode ser produzido a partir de resíduos orgânicos, esgoto, aterros sanitários e atividades agropecuárias, criando oportunidades para integração entre diferentes cadeias econômicas.

Embora ainda represente uma parcela limitada da matriz energética nacional, o biometano vem ganhando espaço em iniciativas que buscam combinar gestão de resíduos, segurança energética e redução de emissões. O corredor entre Cubatão, Sumaré e Ribeirão Preto se insere nesse cenário ao conectar produção, distribuição e consumo em uma mesma operação.

Mais do que uma iniciativa voltada ao transporte de cargas, o projeto evidencia como resíduos, energia e logística passam a aparecer de forma cada vez mais integrada nas estratégias de infraestrutura.

Como construímos este material
Esta matéria foi desenvolvida com base em informações divulgadas pelo BNDES e pela Exame, complementadas por estudos da Agência Internacional de Energia (IEA) e da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) sobre biometano, aproveitamento energético de resíduos e transporte pesado. A análise buscou contextualizar os impactos do projeto para infraestrutura, logística, energia e operações urbanas. Caso identifique alguma inconsistência ou queira sugerir novas pautas, entre em contato pelo e-mail [email protected].


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