Mais de 50 milhões de postes sustentam energia e internet no Brasil, mas ocupação irregular aumenta riscos nas cidades

Projeto de Lei 3220/2019 reacende o debate sobre uma infraestrutura que se tornou essencial para energia, internet e telefonia, mas que também concentra riscos de acidentes, falhas operacionais e degradação urbana

Por Redação

Mais de 50 milhões de postes sustentam energia e internet no Brasil, mas ocupação irregular aumenta riscos nas cidades

Foto: https://depositphotos.com/br/418118900



Quando se fala em infraestrutura urbana, a atenção normalmente se volta para rodovias, saneamento, transporte público ou energia. Poucas estruturas são tão presentes nas cidades brasileiras quanto os postes, mas raramente eles entram no debate público.

O Brasil possui mais de 50 milhões de postes distribuídos pelo território nacional. Originalmente projetados para a distribuição de energia elétrica, eles passaram a desempenhar uma função muito mais ampla. Hoje sustentam redes de internet, telefonia, TV por assinatura, sistemas de monitoramento, equipamentos de segurança e parte significativa da conectividade que mantém empresas, serviços públicos e cidadãos conectados.

O problema é que essa expansão ocorreu de forma muito mais rápida do que a organização da infraestrutura. O resultado está visível em milhares de ruas brasileiras: cabos acumulados, fios sem identificação, equipamentos instalados de forma irregular e estruturas cada vez mais sobrecarregadas.

Embora a poluição visual seja o aspecto mais evidente para a população, especialistas apontam que o problema vai muito além da estética urbana.

Uma infraestrutura crítica para a economia digital
A economia digital depende de uma camada física que muitas vezes passa despercebida. O crescimento acelerado da banda larga, da fibra óptica, do streaming, do trabalho remoto e, mais recentemente, da inteligência artificial, aumentou significativamente a demanda por redes de telecomunicações. Toda essa infraestrutura precisa estar conectada fisicamente às cidades.

Segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), milhões de pontos de compartilhamento são utilizados simultaneamente por distribuidoras de energia e empresas de telecomunicações em todo o país. Na prática, isso significa que os postes se transformaram em um dos ativos urbanos mais importantes para o funcionamento da economia contemporânea.

Quando essa infraestrutura apresenta problemas, os impactos vão além da interrupção de serviços. Empresas podem perder conectividade, sistemas de monitoramento podem ficar indisponíveis e operações inteiras podem ser afetadas.

O risco que não aparece nas estatísticas
O crescimento desordenado da ocupação dos postes trouxe consequências operacionais importantes. Corpos de bombeiros, concessionárias de energia e órgãos reguladores frequentemente apontam o excesso de cabos abandonados e instalações irregulares como fatores que aumentam o risco de acidentes e incêndios.

Além disso, a ausência de identificação adequada dificulta a responsabilização e a manutenção da infraestrutura. Quando um cabo cai ou uma estrutura apresenta falha, muitas vezes não é simples identificar qual empresa é responsável pelo ativo, o que prolonga o tempo de resposta e aumenta os riscos para a população.

Para gestores públicos, concessionárias e empresas de infraestrutura, a situação também gera custos adicionais relacionados a inspeções, fiscalização e manutenção.

O avanço das cidades inteligentes aumenta a pressão
A discussão ganha ainda mais relevância porque a demanda por infraestrutura tende a crescer. O avanço das redes 5G, dos sensores urbanos, dos sistemas de monitoramento em tempo real e dos projetos de cidades inteligentes exige cada vez mais capacidade de conexão.

Segundo estimativas da GSMA, organização global que representa operadoras móveis, a expansão das redes digitais será um dos principais motores de desenvolvimento urbano nesta década. Isso significa que a infraestrutura existente precisará suportar um volume crescente de equipamentos e dados.

Sem organização adequada, o risco é transformar uma infraestrutura já pressionada em um gargalo para a expansão tecnológica das cidades.

O que muda com o Projeto de Lei 3220/2019?
A proposta do Projeto de Lei 3220/2019 busca criar regras mais claras para o compartilhamento dos postes entre distribuidoras de energia e empresas de telecomunicações. Os defensores do projeto argumentam que a medida pode contribuir para reduzir conflitos regulatórios, organizar a ocupação da infraestrutura e aumentar a segurança operacional sem criar novas burocracias ou custos adicionais para os consumidores.

O objetivo é tornar mais clara a divisão de responsabilidades entre os agentes que utilizam os postes, facilitando a fiscalização e a remoção de instalações irregulares. Embora o tema pareça técnico, ele tem implicações diretas para a qualidade dos serviços que chegam à população.

Como construímos este material
Esta matéria foi produzida com base nas discussões em torno do Projeto de Lei 3220/2019, em informações públicas sobre o compartilhamento de infraestrutura entre os setores de energia e telecomunicações e em dados de entidades reguladoras e do setor de conectividade. Caso identifique alguma inconsistência ou queira sugerir novas pautas, entre em contato pelo e-mail [email protected].


Veja mais conteúdos

Conteúdos que gostaríamos de sugerir para a sua leitura.

Líderes de audiência

Data Center

BNDES amplia aposta em data centers nacionais com novo projeto de arquitetura modular

Financiamento de R$ 10,18 milhões para a ALGcom busca desenvolver uma solução brasileira capaz de reduzir em até 50% o tempo de implantação de data centers, em um momento de expansão da infraestrutura digital no país

Workplace

Licença-paternidade ampliada: o que essa mudança revela sobre os ambientes de trabalho?

A ampliação da licença-paternidade coloca um tema tradicionalmente tratado pelo RH dentro de uma discussão mais ampla sobre ocupação, experiência do colaborador e adaptação dos ambientes corporativos às novas formas de trabalho

Operações

CVM revê exigência para relatórios ESG e desloca discussão para a governança corporativa

Mudança na regulamentação da Comissão de Valores Mobiliários retira a obrigatoriedade da divulgação de informações de sustentabilidade a partir de 2026, mas pressão de investidores, financiadores e cadeias globais de valor tende a manter a agenda ESG no centro das estratégias empresariais

Workplace

Itaú amplia trabalho presencial para três dias. O híbrido está entrando em uma nova fase?

Nova política amplia a presença física para parte dos colaboradores e reforça uma tendência observada em grandes empresas: a discussão sobre trabalho híbrido começa a migrar da quantidade de dias no escritório para a gestão da cultura, da colaboração e da experiência dos times

Sugestões da Redação

Mercado

Real Estate em 2026. O que orienta a escolha entre ocupar, adaptar ou investir?

Relatório da JLL mostra como a redução da oferta de novos empreendimentos valoriza ativos de alta qualidade no mercado imobiliário global

Outside Work

Em 2026, sua casa terá um "CPF". Entenda o que é o Cadastro Imobiliário Brasileiro e como ele afe...

Um novo cadastro nacional vai reorganizar a forma como o Estado enxerga os imóveis no Brasil. A partir de 2026, essa mudança começa a impactar impostos, transações e a gestão patrimonial

Revista InfraFM

Quando saúde mental, liderança e Workplace viram estratégia de negócio

De Harvard a Oxford, passando por CEOs que já transformam lucro em bem-estar: Mind Summit mostra que o futuro das organizações não é sobre espaços para trabalhar, e sim sobre espaços que libertam o melhor das pessoas. Facilities & Workplace entram no centro da estratégia corporativa

Revista InfraFM

O engenheiro que também aprendeu a cuidar de prédios vivos

A arquitetura humana e tecnológica dos campi do Insper integra educação, convivência e networking

Revista InfraFM

O futuro já começou. Quem vai gerenciá-lo?

Projetando a sociedade do futuro para as nossas vidas

Revista InfraFM

Azul por dentro da operação que faz o Brasil voar

Infraestrutura que trata o avião como cliente e formação que sustenta a excelência operacional da companhia aérea