Quando se fala em FM, ainda é comum relacionar a atividade principalmente à gestão de edifícios corporativos, manutenção predial, limpeza, segurança e experiência dos ocupantes. A trajetória de Philip Chester, entretanto, mostra que o FM pode estar presente em ambientes muito mais amplos, complexos e desafiadores, como bases industriais, suporte às operações em plataformas de óleo e gás e centros de fabricação e manutenção de helicópteros.
Pós-graduado em Gestão de Projetos e com mais de 15 anos de experiência, Philip atuou em empresas nacionais e multinacionais, nos setores industrial, de serviços, cosméticos, óleo e gás e aeronáutico. Ao longo da carreira, passou a liderar equipes multidisciplinares e gerir um amplo portfólio de serviços de FM, onde se destacam atividades como gestão integrada da manutenção, frota de veículos, gestão de viagens e transporte, contratos e projetos estratégicos, obras de infraestrutura e gestão orçamentária.
Entre suas experiências mais relevantes à frente da área de FM, destaca-se o seu envolvimento em projetos de grande porte da indústria offshore, elaborando o planejamento e a condução das atividades de Facilities principalmente, nos processos de mobilização e desmobilização, onde trabalhou na adequação da infraestrutura física de escritórios e bases operacionais, e no planejamento da desmobilização de 25 unidades offshore.
O desafio de desmobilizar uma operação offshore
A operação teve início com a conquista de contratos cujo escopo abrangia serviços de Engenharia, modificação e manutenção offshore que inicialmente atendiam 12 unidades marítimas de produção, com a conquista de novos contratos, passou a contemplar 25 plataformas na região da Bacia de Campos.
A estratégia de negócios aliada ao volume crescente de projetos demandou a necessidade de implantação de uma nova base operacional. O espaço locado passou a reunir uma extensa área de escritório com mais de 130 posições, ampla área de Manufatura Industrial, com o comissionamento de equipamentos voltados para as atividades de caldeiraria, usinagem e metrologia, além de uma área interna e externa de almoxarifado, preparação, e armazenagem de produtos acabados e semiacabados, permitindo o recebimento, conferência, rastreabilidade e a devida organização dos materiais e equipamentos.
O plano de mobilização dos contratos contou com a necessidade de adaptação da infraestrutura física existente, de modo a garantir a capacidade produtiva da planta e a eficiência operacional, exigindo um razoável investimento inicial para atividades de pavimentação, terraplenagem, implantação de sistema de drenagem, montagem industrial, ampliação dos sistemas elétricos e ar comprimido, construção de escritórios, metrologia, comissionamento de equipamentos etc. Durante aproximadamente três anos, a base sustentou as atividades relacionadas aos contratos.
A proximidade de encerramento dos contratos levou a uma etapa igualmente complexa, o planejamento de desmobilização de toda a operação, que contou com o trabalho conjunto de todas as áreas e departamentos, e consistiu inicialmente em avaliar oportunidades de redução de custo a partir da transferência parcial de parte dos ativos onshore para outras unidades e outros contratos, redução do espaço útil de manufatura, e posteriormente, negociações pontuais junto a empresas do setor e parceiros locais para alienação de itens de estoque, materiais, equipamentos entre outros.
A desmobilização offshore envolveu o desembarque de todos os ativos, ferramentas, sobressalentes e consumíveis a bordo de propriedade da empresa, resultando na movimentação de aproximadamente 400 contêineres. Para todos os itens enquadrados no escopo de desembarque foi aplicado um detalhado processo de inventário a bordo, com a respectiva conferência e avaliação das condições operacionais, em terra, sendo este, parte do procedimento de precificação, transferência de unidade e alienação, oportunizando uma nova fonte de geração de receita para a organização.
Considerando as equipes offshore e onshore, entre 500 e 600 profissionais estiveram envolvidos nas diferentes fases do processo com redução gradual até o encerramento definitivo das atividades. Com parte da manufatura transferida antecipadamente para uma base própria, foi liberada uma área de cerca de 1.600m² para o recebimento e triagem dos equipamentos provenientes das plataformas.
Além da movimentação física dos materiais, foi necessário negociar as condições para encerramento da locação junto ao proprietário do imóvel, sendo possível alinhar a manutenção de mais de 25 melhorias realizadas no imóvel e recondicionar ao projeto original outras 7 intervenções realizadas. A partir de negociações com o proprietário da área foi possível reduzir os custos de intervenções para desmobilização do imóvel que haviam sidos originalmente considerados a partir de uma redução significativa de escopo de trabalho, e da demonstração do valor agregado trazidos por algumas da melhorias implantadas na área sob locação.
A desmobilização física da infraestrutura, aliada a limpeza de toda a área, recuperação de espaços degradados e reestabelecimento de determinadas áreas a sua condição original, exigiu um custo próximo de R$ 470 mil, e o processo completo, desde o planejamento até as etapas finais, estendeu-se por aproximadamente um ano e meio.
Para Philip, essa experiência demonstra que o encerramento de uma operação precisa ser planejado com o mesmo cuidado dedicado à sua implantação. “É necessário pensar antecipadamente nas responsabilidades sobre os ativos, nas condições de devolução dos espaços, nos custos de desmobilização, nos inventários e na destinação dos equipamentos”, explica. Sem esse planejamento, uma mobilização ou desmobilização de projetos pode provocar desperdícios, atrasos, riscos operacionais, multas contratuais e perdas financeiras.
Facilities Manager no setor aeronáutico
Philip também atuou na indústria aeronáutica, supervisionando as atividades de Infraestrutura, Facilities, Mobilidade e Segurança Corporativa de uma fabricante de helicópteros. Nesse contexto, acompanhou iniciativas voltadas à ampliação e modernização de áreas operacionais, bem como o comissionamento de novos equipamentos, contribuindo para o aumento da produtividade, eficiência e segurança operacional, além de implementar a digitalização de processos, e novas rotinas de trabalho voltadas para a segurança patrimonial.
Essa experiência mostrou, na prática, que o nível de especialização e regulamentação da indústria aeronáutica reflete diretamente na forma como os ativos e infraestrutura precisam ser geridos. Em um setor submetido a rigorosos requisitos técnicos e certificações, a gestão de ativos e infraestrutura precisam acompanhar o mesmo grau de exigência, com processos especializados, monitoramento contínuo e foco permanente na confiabilidade, disponibilidade e conformidade.
Para Philip, a criticidade operacional envolvendo determinados ativos aliado as suas especificidades técnicas, exige além de um acompanhamento criterioso, planejamento detalhado e uma programação rigorosa de manutenção, estabelecida a partir de um PCM. Nesse cenário, a gestão de ativo passa a exercer um papel estratégico para a continuidade e eficiência da operação.
Inteligência artificial para enfrentar desafios reais
Atualmente, Philip vem se dedicando ao estudo da inteligência artificial aplicada ao FM. O interesse surgiu a partir de problemas observados ao longo de sua carreira, especialmente na gestão de ativos e de fornecedores. Uma das possibilidades estudadas é a aplicação da IA para identificar alterações sensíveis de parâmetros em determinados equipamentos, principalmente ruídos, vibrações e outros padrões alertando as equipes antes da ocorrência de uma falha. A tecnologia pode contribuir para a evolução de modelos preventivos e estratégias cada vez mais preditivas, reduzindo assim a exposição da empresa a determinados riscos operacionais.
Outro campo de interesse é a gestão de contratos. Grandes empresas administram inúmeros fornecedores, documentos, indicadores, obrigações trabalhistas e níveis de serviço. Ferramentas de IA podem apoiar a análise dessas informações, identificar inconsistências e sinalizar possíveis descumprimentos, atuando como mecanismo de alerta para empresa e suas subcontratadas, podendo contribuir de maneira eficaz para garantia do cumprimento de todas as obrigações legais, diminuindo o nível de exposição e riscos contratuais.
A tecnologia não substitui a responsabilidade dos gestores, mas pode reduzir tarefas administrativas e permitir que os profissionais concentrem seu tempo em decisões mais estratégicas. O desafio é garantir que essas aplicações respeitem as políticas de governança, compliance e segurança da informação das organizações.
Conhecimento disponível para o setor
A trajetória de Philip mostra que o FM não está limitado a determinado tipo de prédio. Onde existem pessoas, ativos, infraestrutura, riscos e operações que precisam funcionar, há espaço para a função do FM.
Ao compartilhar os aprendizados adquiridos em projetos complexos e aprofundar seus conhecimentos em inteligência artificial, o profissional coloca à disposição do mercado uma experiência que pode apoiar empresas e gestores diante de novos desafios.
Registrar e compartilhar esses casos também contribui para o amadurecimento do setor. Experiências de mobilização, manutenção e desmobilização, quando documentadas, deixam de pertencer somente às equipes que as executaram e se transformam em referências para futuras operações. - [email protected]