Desgaste entre gestores liderou queda global de engajamento, aponta Gallup

Dados do State of the Global Workplace 2025, publicado pela Gallup, indicam que a queda do engajamento nas empresas esteve concentrada em cargos de liderança, com impacto direto sobre produtividade e desempenho organizacional

Por Redação

Desgaste entre gestores liderou queda global de engajamento, aponta Gallup

Foto: Canva.com/FatCamera


O State of the Global Workplace, estudo global da Gallup sobre engajamento, bem-estar e experiência no trabalho, indica que a perda de produtividade observada nas organizações tem relação direta com a deterioração do engajamento gerencial. O relatório mostra que o desgaste deixou de ser difuso e passou a se concentrar em cargos de liderança e decisão, com efeitos mensuráveis sobre desempenho e qualidade das escolhas estratégicas.

O estudo, publicado em 2025, estima que a queda do engajamento registrada em 2024 resultou em uma perda global aproximada de US$ 438 bilhões em produtividade. Segundo o relatório, o engajamento dos gestores caiu de 30% para 27% entre 2023 e 2024, enquanto o engajamento dos trabalhadores sem função gerencial permaneceu praticamente estável. Essa retração entre gestores foi apontada como o principal vetor da queda global de engajamento nas empresas.

A pesquisa se baseia em dados coletados ao longo de 2024, a partir de entrevistas realizadas pela Gallup com trabalhadores em mais de 160 países. O levantamento integra o Gallup World Poll, com amostras representativas da população economicamente ativa de cada país, e utiliza questionários padronizados para medir engajamento, bem-estar e experiência no trabalho. Os resultados são ponderados para permitir comparações globais e regionais.

Esse dado é revelador porque desloca o foco do problema. O enfraquecimento não ocorre na base da organização, mas justamente no nível responsável por coordenar equipes, sustentar operações e tomar decisões diariamente.

Gestores sob pressão contínua

De acordo com o relatório, a queda do engajamento gerencial observada está associada a um acúmulo de responsabilidades que se intensificou nos últimos anos. Entre os fatores citados pela Gallup estão reestruturações frequentes, metas simultâneas, equipes mais enxutas, aceleração digital e aumento das expectativas das equipes em relação à liderança.

O estudo indica que 42% dos gestores relataram vivenciar estresse durante grande parte do dia, percentual superior ao registrado entre colaboradores sem função de liderança. No mesmo período, os indicadores de bem-estar entre gestores apresentaram queda, enquanto os colaboradores não gestores registraram leve melhora. A leitura da Gallup é objetiva: a pressão não está distribuída de forma homogênea dentro das organizações.

Esse cenário ganha relevância quando cruzado com outro dado central do relatório. A Gallup estima que cerca de 70% do engajamento das equipes é diretamente influenciado pelo gestor. Quando o gestor perde engajamento e bem-estar, o impacto se propaga para produtividade, clima organizacional e qualidade das decisões.

O estresse como fator estrutural do trabalho decisório

A interpretação apresentada pela Gallup dialoga com o enquadramento feito pela World Health Organization nas Guidelines on mental health at work (Diretrizes sobre saúde mental no trabalho, publicadas em 2022). O documento classifica carga excessiva, pressão contínua e baixa previsibilidade como riscos psicossociais estruturais, associados ao desenho do trabalho e à forma como as funções são organizadas.

O impacto específico do estresse contínuo sobre cargos de decisão também foi analisado pela Deloitte no estudo Well-being and resilience in senior leaders (Bem-estar e resiliência em líderes seniores, 2022). O relatório associa o desgaste em lideranças à centralização de decisões, múltiplos stakeholders e ausência de mecanismos consistentes de recuperação mental.

Embora o desempenho possa ser sustentado no curto prazo, o estudo aponta que o custo cognitivo se acumula ao longo do tempo, afetando clareza estratégica, julgamento e capacidade de sustentar operações complexas.

O custo invisível do estresse decisório

Ao quantificar perdas globais associadas à queda de engajamento em 2024, a Gallup reforça que o estresse gerencial não é apenas um tema de bem-estar individual. Ele se manifesta em decisões menos consistentes, conflitos internos, aumento de rotatividade e perda de eficiência operacional.

Quando o grupo responsável por engajar equipes, alinhar prioridades e tomar decisões passa a operar sob desgaste contínuo, o risco deixa de ser individual e se torna organizacional.


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