A inteligência em FM começa antes da tecnologia

Sensores, dados e inteligência artificial ampliam a capacidade de gestão, mas os resultados dependem de pessoas, planejamento e uma operação bem estruturada

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Quando digo que precisamos avançar para um Facility Management inteligente, a primeira associação costuma ser com inteligência artificial. É compreensível. A IA tomou conta das conversas e trouxe possibilidades relevantes para a gestão de edifícios. Mas a reflexão que proponho começa antes da escolha de qualquer ferramenta. Na minha visão, precisamos ampliar o significado de IFM, tradicionalmente associado ao Integrated Facility Management, para incorporar a ideia de Intelligent Facility Management. Integrar serviços continua sendo essencial. O próximo passo é transformar essa integração em inteligência para decidir, antecipar problemas e melhorar a operação.

A tecnologia pode nos ajudar a identificar sinais de falha em equipamentos, otimizar o consumo de energia e organizar informações que antes estavam dispersas. Também pode liberar tempo do gestor para analisar cenários e participar das decisões estratégicas do negócio. Mas, para isso acontecer, precisamos construir uma base consistente. Sem medição, integração e histórico confiável, não há inteligência artificial capaz de compreender a realidade de uma instalação. O que uma ferramenta sabe sobre operação predial não é, necessariamente, o que ela sabe sobre a nossa operação.

Subir os degraus da maturidade
Vejo a transformação digital como uma evolução que precisa acontecer degrau por degrau. Primeiro, devemos medir aquilo que importa: consumo, temperatura, vibração, pressão e outros indicadores relevantes para cada sistema. Depois, precisamos conectar essas informações, garantir sua qualidade e construir um histórico que sustente nossas análises.

É sobre essa base que a inteligência artificial pode gerar valor. Começar pela ferramenta, sem preparar a infraestrutura e os processos, pode produzir um painel visualmente impressionante, mas pouco útil para resolver os problemas do dia a dia.
Por isso, considero fundamental investir em ações estruturantes. Sensorização, digitalização dos processos, segurança dos dados e orientação técnica precisa fazer parte do planejamento. A decisão de investimento deve responder a uma necessidade concreta da operação.

Antes de perguntar à IA o que ela pode fazer por nós, precisamos conseguir explicar o que queremos resolver. Definir o problema, estabelecer prioridades e avaliar a qualidade da resposta continuam sendo responsabilidades humanas.

Planejar a partir do que permanece
Diante de tantas mudanças, é difícil prever quais tecnologias dominarão o mercado nos próximos anos. Mas existe uma pergunta que considero especialmente útil para orientar nossas decisões: o que não vai mudar na operação de Facility Management? A partir da minha experiência, identifico cinco fundamentos que devem sustentar nosso planejamento, independentemente da evolução tecnológica. O primeiro é que as pessoas são o nosso maior ativo. Isso inclui colaboradores, usuários dos espaços, clientes internos e parceiros.

Quando discutimos a experiência no ambiente de trabalho, podemos nos encantar com iniciativas criativas e esquecer o básico. Climatização adequada, qualidade do ar, conforto acústico e iluminação fazem diferença todos os dias. São condições que ajudam as pessoas a trabalhar melhor e a gostar do lugar onde estão. Precisamos olhar para os espaços considerando seu impacto sobre quem os utiliza. Uma economia operacional deve ser avaliada também pelos efeitos que pode produzir no conforto, na saúde e na produtividade.

O segundo fundamento é que a manutenção adiada acumula juros. Quando postergamos uma intervenção necessária, o problema permanece e pode se agravar. Uma atividade que poderia ser planejada se transforma em emergência, exige mobilização de pessoas, dificulta a compra de peças e pode interromper a operação.

Além do custo imediato, existe a perda de vida útil dos ativos e de produtividade das equipes. Quem passa o dia respondendo a urgências tem menos tempo para prevenir a próxima falha. Defendo que a manutenção seja tratada como parte da proteção do negócio. Planejar intervenções e justificar investimentos com informações consistentes é uma responsabilidade estratégica do FM.

O terceiro fundamento é que a operação não funciona sem energia. Podemos ter excelentes instalações e profissionais preparados, mas a indisponibilidade de energia compromete o funcionamento de tudo isso. Portanto, continuidade, eficiência energética e sustentabilidade precisam ser discutidas em conjunto.

Nesse contexto, considero relevante ampliar o conhecimento sobre alternativas como os sistemas de armazenamento de energia em baterias, conhecidos como BESS. Conforme as características da instalação, eles podem contribuir para a continuidade e para a gestão do consumo e da demanda. A escolha exige análise técnica e econômica. Precisamos entender as necessidades da operação e avaliar soluções que respondam a elas, considerando também seus impactos ambientais.

O quarto fundamento é que a memória não registrada se perde. Ainda encontramos operações cujo conhecimento está concentrado na experiência de uma pessoa. Ela sabe o que foi alterado, onde passa uma tubulação, qual componente foi substituído e por que determinada solução foi adotada. Quando sai, parte desse conhecimento vai junto. Registrar intervenções, preservar manuais, controlar garantias e organizar informações dos sistemas é essencial para dar continuidade à gestão. Sem esse histórico, voltamos a investigar problemas já conhecidos e tomamos decisões com uma visão incompleta dos ativos. Também não podemos esperar que a IA encontre padrões em informações que nunca foram registradas. A documentação da operação é parte da infraestrutura necessária para torná-la inteligente.

O quinto fundamento é que a nossa rede de apoio define os nossos resultados. O profissional de FM lida com engenharia, contratos, orçamento, segurança, sustentabilidade e gestão de pessoas. Em um mesmo dia, pode precisar analisar uma falha técnica, responder a uma demanda da liderança e reorganizar uma equipe. Não acredito na figura do gestor que precisa dominar sozinho todas essas disciplinas. Precisamos de equipes capacitadas, parceiros confiáveis e responsabilidades claras. Construir essa rede é uma competência de liderança.

Inteligência com intenção
É com base nesses fundamentos que entendo o Facility Management inteligente: humano, intencional, sustentável e tecnológico. Humano porque os espaços existem para servir às pessoas. Intencional porque precisamos saber qual problema queremos resolver. Sustentável porque nossas decisões devem considerar o futuro da operação. E tecnológico porque temos ferramentas capazes de ampliar nossa capacidade de análise e atuação.

A IA pode ajudar o gestor a ganhar tempo e enxergar tendências. Esse tempo precisa ser convertido em planejamento, desenvolvimento das equipes e decisões melhores. Cabe a nós manter o pensamento crítico e assumir a responsabilidade pelo que fazemos com as informações.

A tecnologia amplifica a capacidade que construímos na operação. Por isso, o protagonismo continua com quem lidera: quem organiza os dados, cuida dos ativos, desenvolve pessoas e toma as decisões necessárias, mesmo quando elas são difíceis. É aí que começa a inteligência em Facility Management.


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