
O avanço da inteligência artificial está alterando as exigências de infraestrutura dos data centers. Com equipamentos de maior potência e concentração de calor, os projetos passam a demandar novas soluções de resfriamento, integração entre sistemas e equipes preparadas para manter operações que não podem parar.
Para o Facility Management, esse movimento amplia os desafios de eficiência energética, manutenção, monitoramento e gestão de riscos. A confiabilidade depende tanto dos equipamentos quanto da capacidade de integrar climatização, hidráulica, energia, automação e tecnologia da informação.
Em entrevista à InfraFM, Edson Alves, CEO do Grupo Star Center, que completa 40 anos de atuação no mercado de climatização, explica as mudanças observadas nos projetos e as oportunidades para fornecedores e profissionais de infraestrutura.
Como a Star Center está percebendo a expansão dos data centers no Brasil?
Estamos percebendo esse crescimento de forma muito concreta. Nos últimos anos, os data centers deixaram de representar apenas um mercado em expansão e passaram a exigir uma transformação na própria engenharia de climatização. A inteligência artificial acelerou esse processo. São ambientes com densidades de potência cada vez maiores e, consequentemente, uma geração de calor muito superior à dos data centers tradicionais. Para nós, isso significa participar de projetos maiores, mais complexos e com requisitos rigorosos de disponibilidade, eficiência energética, redundância e velocidade de implantação. Nossa atuação já envolve sistemas tradicionais de climatização e novas arquiteturas associadas ao resfriamento líquido e à infraestrutura hidráulica para instalações de alta densidade.
Quais condições favorecem o Brasil e quais gargalos podem limitar esse crescimento?
O Brasil reúne condições favoráveis, como um grande mercado digital, crescimento do consumo de dados, expansão dos serviços em nuvem e uma matriz elétrica com forte participação de fontes renováveis, característica valorizada pelos operadores globais. Também tem posição estratégica na América Latina e uma infraestrutura de telecomunicações em desenvolvimento. Por outro lado, existem gargalos importantes. O principal é a disponibilidade de energia elétrica em grande escala e no prazo necessário para acompanhar os investimentos. Há desafios de infraestrutura, licenciamento, disponibilidade de equipamentos, cadeia de suprimentos e formação de mão de obra especializada. Um data center pode ser projetado rapidamente, mas a infraestrutura necessária para colocá-lo em operação precisa evoluir na mesma velocidade.
Como esse segmento se posiciona na estratégia do Grupo Star Center?
Ao longo de nossa trajetória, direcionamos a atuação para instalações de maior complexidade e ambientes de missão crítica. Os data centers ganharam importância porque reúnem competências que desenvolvemos ao longo dos anos, como engenharia, confiabilidade, controle, eficiência energética e execução de instalações complexas. Esse movimento se acelerou significativamente, e missão crítica é hoje uma área estratégica para o Grupo. Mais importante do que avaliar apenas a participação atual no faturamento é observar a velocidade de crescimento do segmento e o volume de oportunidades para os próximos anos.
Que oportunidades surgem para a cadeia de infraestrutura e Facilities Services?
A oportunidade é muito maior do que fornecer equipamentos de climatização. Um data center necessita de uma cadeia completa de engenharia, instalação, automação, energia, hidráulica, tratamento de água, comissionamento, manutenção e monitoramento. Essa infraestrutura precisa operar continuamente, com níveis elevados de confiabilidade. Isso cria oportunidades durante a construção e ao longo de toda a vida útil do empreendimento. Também enxergamos um crescimento importante da pré-fabricação. Com cronogramas mais curtos, aumenta a necessidade de transferir atividades do canteiro para ambientes industriais controlados, utilizando skids, módulos hidráulicos e conjuntos pré-montados e testados antes de chegarem à obra.
Como a inteligência artificial está mudando os projetos de climatização?
Essa é uma das maiores transformações que estamos acompanhando. Durante muitos anos, a climatização dos data centers foi predominantemente baseada no resfriamento do ar. Com o crescimento da inteligência artificial e a utilização de GPUs de alta potência, a densidade térmica dos racks aumentou significativamente. Chega um momento em que transportar toda essa energia térmica exclusivamente pelo ar deixa de ser a solução mais eficiente. Por isso, os projetos começam a incorporar o resfriamento líquido diretamente na infraestrutura dos servidores. Passamos a ter circuitos hidráulicos muito próximos aos equipamentos de TI, com requisitos rigorosos de qualidade do fluido, filtragem, controle de temperatura, pressão, redundância e estanqueidade. A climatização fica ainda mais integrada à arquitetura computacional.
O resfriamento líquido já é uma realidade nos projetos brasileiros?
Sim. O liquid cooling já deixou de ser apenas uma tendência e começa a fazer parte dos projetos desenvolvidos no Brasil, principalmente em ambientes destinados à inteligência artificial e à computação de alta densidade. Nessas instalações, parte da carga térmica é removida diretamente pelo líquido e outra parte continua sendo tratada pelo sistema de climatização do ambiente.
Quais decisões ajudam a reduzir o consumo energético sem comprometer a confiabilidade?
É necessário selecionar corretamente chillers, bombas, trocadores de calor e sistemas de controle, executar uma boa instalação e trabalhar com temperaturas de água adequadas. Também é importante utilizar equipamentos eficientes em carga parcial e aplicar automação para que a instalação opere conforme a demanda real. O sistema precisa ser analisado como um conjunto. Não adianta ter um equipamento extremamente eficiente em uma instalação hidráulica ou de controle mal dimensionada. Nos data centers de nova geração, temperaturas mais elevadas nos circuitos de água e o avanço do liquid cooling podem criar condições para reduzir o PUE, indicador de eficiência energética do data center.
O que precisa ser considerado para impedir que uma falha na climatização interrompa a operação?
Em missão crítica, não basta instalar equipamentos redundantes. É necessário pensar na redundância de todo o sistema. Isso inclui geração de água gelada, bombeamento, distribuição hidráulica, alimentação elétrica, automação, comunicação e todos os pontos que possam representar uma falha única. O projeto também precisa permitir manutenção sem interromper a operação. Os equipamentos devem poder ser isolados, substituídos ou reparados enquanto o restante da infraestrutura continua funcionando. A automação é essencial. Quanto mais cedo identificamos alterações de temperatura, pressão, vazão, vibração ou consumo elétrico, maior é a possibilidade de atuar antes que essa condição se transforme em falha.
Como o monitoramento e a análise de dados contribuem para a manutenção?
A evolução da manutenção está em transformar dados operacionais em informação para a tomada de decisão. Os sistemas permitem acompanhar continuamente temperaturas, pressões, vazões, consumo elétrico, horas de funcionamento e condições de operação. A análise histórica ajuda a identificar tendências e desvios antes que provoquem uma parada. Na KPM Service, nossa divisão de prestação de serviços, entendemos que o próximo passo é ampliar a utilização de ferramentas de análise de dados e inteligência artificial para apoiar a manutenção preditiva. O objetivo é evoluir de um modelo baseado apenas em periodicidade para outro que considere também a condição real do equipamento e seu comportamento operacional.
Como equilibrar eficiência energética, uso da água e segurança operacional?
Esse equilíbrio precisa começar na concepção do projeto. A eficiência energética deve fazer parte das decisões sobre arquitetura, temperaturas de operação, equipamentos, sistemas hidráulicos, automação e estratégia de resfriamento. O mesmo vale para a água. Cada projeto precisa avaliar as condições climáticas, a disponibilidade hídrica, o consumo energético e os requisitos operacionais do local. Também é importante considerar todo o ciclo de vida da instalação. Um sistema eficiente, bem monitorado e corretamente mantido preserva seu desempenho ao longo dos anos.
O mercado dispõe de profissionais preparados para essas novas exigências?
Esse é um dos maiores desafios para sustentar o ritmo de crescimento previsto. O Brasil possui excelentes profissionais de engenharia e climatização, mas a expansão dos data centers e a chegada de novas tecnologias criam uma demanda maior por especialização. Precisaremos formar profissionais que entendam climatização, missão crítica, hidráulica, automação, controle, qualidade da água, comissionamento e liquid cooling. Também existe uma demanda muito grande por profissionais de campo. Precisamos de técnicos, instaladores, soldadores e equipes de automação e manutenção capazes de executar instalações com os níveis de qualidade e rastreabilidade exigidos por esse mercado.
O que o senhor projeta para os próximos cinco anos?
Estamos diante de uma das maiores oportunidades dos últimos anos para o setor de climatização e infraestrutura de missão crítica no Brasil. Há crescimento da capacidade instalada, aumento da densidade computacional e uma transformação na maneira como o calor é removido dos equipamentos. Para o Grupo Star Center, enxergamos três frentes complementares: engenharia e implantação de sistemas de climatização de missão crítica; infraestrutura para liquid cooling e sistemas pré-fabricados; e manutenção especializada durante toda a vida útil das instalações. Acredito que veremos uma aproximação cada vez maior entre climatização, hidráulica, energia, automação e tecnologia da informação. As empresas que integrarem essas disciplinas, investirem em capacitação e acompanharem essa transformação estarão preparadas para participar de um mercado cada vez mais relevante para a infraestrutura brasileira.