Popularização das canetas emagrecedoras tendem a transformar a alimentação nos escritórios

Medicamentos da classe GLP-1 pode alterar hábitos de consumo, restaurantes corporativos e contratos de alimentação, exigindo atenção dos gestores de Facilities

Por Léa Lobo

Popularização das canetas emagrecedoras tendem a transformar a alimentação nos escritórios

Foto: Towfiqu Barbhuiya by Pexels


A expansão dos medicamentos GLP-1, utilizados no tratamento do diabetes e da obesidade, começa a gerar efeitos que ultrapassam a área médica. Ao reduzir o apetite e modificar preferências alimentares, esses medicamentos podem influenciar o consumo em restaurantes corporativos, cantinas, cafeterias, máquinas de vending e espaços de convivência.

O tema foi apresentado por Gustavo Gama, sócio e diretor da Gran Coffee, durante a Feira Infra 2026. Na palestra “O novo corpo corporativo”, o executivo propôs uma reflexão aos gestores se os serviços de alimentação oferecidos atualmente continuarão adequados ao perfil dos trabalhadores nos próximos anos? Para Facility Management, a questão envolve planejamento de demanda, gestão de contratos, experiência dos colaboradores, desperdício, utilização dos espaços e eficiência operacional.

Novos hábitos de consumo
Medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro atuam em mecanismos relacionados à saciedade e ao controle metabólico. Sua utilização crescente para o tratamento da obesidade tem sido associada a mudanças como redução das porções, menor procura por alimentos muito calóricos e maior atenção à composição nutricional das refeições. A apresentação da Gran Coffee aponta que o mercado brasileiro ainda está em fase inicial, mas pode crescer rapidamente com a ampliação da oferta e a entrada de novos medicamentos.

No ambiente de trabalho, essa transformação pode reduzir a demanda por snacks ultraprocessados, doces, bebidas açucaradas e refeições volumosas. Ao mesmo tempo, pode aumentar a procura por porções menores, alimentos com maior densidade nutricional e opções com proteínas, fibras e menor concentração de açúcar. Isso não significa criar produtos exclusivos para usuários de GLP-1. O uso de medicamentos é uma informação de saúde sensível e não deve ser monitorado ou inferido pelo empregador. A resposta adequada é ampliar as escolhas disponíveis para todos os colaboradores.

Contratos precisam acompanhar a demanda
Muitos contratos de alimentação corporativa são estruturados com base em históricos de consumo. Quando os hábitos mudam, surgem riscos de excesso de estoque, desperdício, baixa rotatividade de produtos e equipamentos subutilizados. Restaurantes, minimercados autônomos, serviços de coffee break e máquinas de autoatendimento precisam ser avaliados pela capacidade de acompanhar o comportamento real dos usuários.

Indicadores como consumo por categoria, perda de alimentos, frequência de reposição, ruptura de estoque, custo por usuário e satisfação podem ajudar a identificar mudanças. A análise deve utilizar dados agregados e preservar a privacidade dos colaboradores.

Antes de alterar todo o portfólio, o gestor pode testar novas combinações em pequena escala. Entre as possibilidades estão diferentes tamanhos de porção, frutas, alimentos com fibras, fontes variadas de proteína, bebidas sem açúcar e informações mais claras sobre ingredientes e composição nutricional. Também é necessário avaliar conservação, validade, descarte de embalagens, capacidade dos equipamentos e custo total. Acrescentar termos como “proteico” ou “saudável” ao serviço não garante, por si só, valor nutricional ou eficiência operacional.

A pausa para o café continua relevante
Embora o consumo de alimentos possa diminuir, a pausa para o café tende a permanecer como parte da rotina corporativa. Mais do que alimentação, esse momento está associado à interação social, ao descanso e às conversas informais entre equipes. Por isso, o valor do espaço do café não depende apenas da quantidade consumida. A área pode funcionar como ponto de encontro, apoio à colaboração e oportunidade de recuperação ao longo da jornada.

O serviço, entretanto, pode evoluir. Cafés sem açúcar, chás, água, bebidas frias, alternativas sem lactose e acompanhamentos em pequenas porções podem ganhar espaço em relação a produtos muito calóricos ou ultraprocessados. O desafio será preservar a experiência social e a conveniência, ao mesmo tempo que o portfólio acompanha novas preferências.

O que isso significa para FM
A lógica da ISO 41001 considera a integração entre pessoas, lugares e processos no ambiente construído para melhorar a qualidade de vida e a produtividade. A mudança no comportamento alimentar provocada pelos GLP-1 exige exatamente essa visão integrada. Para as pessoas, significa oferecer escolhas mais diversas sem criar constrangimento ou discriminação. Para os lugares, pode representar ajustes em restaurantes, cafeterias, áreas de convivência e pontos de autoatendimento. Para os processos, demanda revisão de compras, abastecimento, contratos, indicadores e critérios de avaliação dos fornecedores.

O papel de Facilities não é recomendar medicamentos nem identificar usuários. A responsabilidade do gestor está em acompanhar tendências de consumo, reduzir desperdícios e construir uma oferta flexível, inclusiva e operacionalmente eficiente. A melhor resposta não é transformar imediatamente toda a alimentação corporativa. É observar os dados, conversar com Recursos Humanos e Saúde Ocupacional, realizar testes e ajustar os serviços conforme a demanda efetivamente mudar. O escritório preparado para o novo perfil dos trabalhadores será aquele capaz de adaptar infraestrutura, serviços e experiências sem perder de vista a privacidade, a continuidade operacional e o bem-estar das pessoas.


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