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Real estate como benefício, onde o escritório retém talentos e reduz custos

Modelo em que empresas recalculam cultura, produtividade, mobilidade, bem-estar e até a equação salarial por geografia

Por Léa Lobo | InfraFM

Real estate como benefício, onde o escritório retem talentos e reduz custos

Foto: Pexels


O que acontece quando cinco gerações convivem no mesmo organograma, Baby Boomers, X, Millennials, Z e a chegada da Alpha e, ao mesmo tempo, o mercado exige velocidade, flexibilidade e saúde mental? Para Tiago Alves, CEO Brasil da Regus & Spaces, a resposta está menos em “forçar presença” e mais em redesenhar o trabalho como experiência: “O híbrido hoje é o novo normal. Eu vou riscar o nome híbrido e chamar só de trabalho”.

Na conversa com a InfraFM, o executivo descreve um cenário em que profissionais entram e saem das empresas com a mesma facilidade, a paciência para deslocamentos longos caiu drasticamente e o escritório deixou de ser endereço fixo para virar infraestrutura sob demanda, ou seja, “uma nuvem de escritórios”, com reserva por aplicativo, uso por diária e possibilidade de transformar o custo imobiliário em benefício corporativo.

O choque geracional e o fim da lógica do “aguenta firme”


Real estate comobenefício, onde o escritótio retem talentos e reduz custos


Tiago retrata um contraste direto entre o modelo tradicional de carreira: “entra, fica quieto, obedece, faz o que tem que fazer para crescer”. E o que ele vê hoje, principalmente com os mais jovens, menos tolerância a rotinas que comprometam bem-estar e logística, e mais decisões orientadas por equilíbrio de vida.

“Se você apertar e exigir cinco dias no escritório, muita gente simplesmente não volta. Vai sair”, afirma. No limite, ele menciona o fenômeno do quiet quitting: “Eu vou pedindo demissão sem você perceber. Faço só o básico… mas se você me apertar, eu peço demissão”. O recado para lideranças é que não adianta pintar o escritório de cores vibrantes se a gestão continua tóxica. “O que faz a diferença não é o ‘colorido’ do lugar; é a empresa ser mais legal de verdade”, pontua.

Mobilidade, clima e o escritório “perto de casa”

Se existe um vilão comum nesse debate, ele não se chama escritório, se chama trajeto. “Ninguém odeia o escritório. A gente odeia o trajeto até o escritório”, diz Tiago, ao comentar a realidade de São Paulo e outras capitais.

Ele traz uma conta simples para mostrar o impacto: economizar 90 minutos por deslocamento, em apenas dois dias por semana, pode devolver ao profissional o equivalente a mais de um mês de tempo produtivo ao ano. Para as empresas, isso muda a régua de produtividade e até a necessidade de headcount.

Além do trânsito, o executivo cita eventos climáticos como catalisadores de uso do escritório flexível, como alagamentos, falta de luz e ondas de calor impulsionando a demanda por day office (uso por diária). Em uma dessas situações, a empresa chegou a abrir lounges para quem precisava trabalhar, e a iniciativa viralizou. “Teve gente que não perdeu entrevista de emprego e até prova de bolsa por causa disso.”

Escritório como benefício como a virada do jogo no workplace

Uma das ideias mais fortes da entrevista é a transformação do real estate em pacote de benefícios. O modelo, segundo Tiago, funciona assim: o colaborador acessa um app, reserva o que precisa (mesa, sala, espaço de foco, team room) e a empresa consolida a fatura no fim do mês.

“Eu transformei real estate num benefício que ele oferece para as pessoas. Isso é um golaço”, diz. A lógica se aproxima de vale-refeição e vale-transporte, só que para espaço de trabalho.

Ele cita o caso de uma empresa japonesa de tecnologia com centenas de colaboradores no Brasil operando sem escritório fixo. O acesso à rede é o “benefício de retenção”. “É igual assistência médica, você pode passar um ano sem usar, mas só de saber que tem, te retém.”

A nova conta do CFO

No discurso de Tiago, a transformação do workplace não é apenas cultural, mas essencialmente financeira. Ele compara o coworking ao dilema “Uber x carro próprio” para explicar que a decisão não gira em torno de ser mais barato por metro quadrado, e sim de reduzir risco, prazo, imobilização de capital e custo de oportunidade.

Em um cenário de Selic elevada, montar um escritório próprio significa imobilizar recursos que poderiam estar rendendo; já o modelo flexível preserva caixa. Além disso, os contratos acompanham o crescimento e a sazonalidade do negócio, permitem começar pequeno e expandir conforme a demanda, sem a necessidade de apostar antecipadamente em grandes lajes, e ainda oferecem velocidade de implantação, atendendo prazos que o modelo convencional simplesmente não consegue acompanhar.

Como exemplo, ele cita um projeto corporativo de grande escala, entregue em tempo recorde: uma operação com mais de 7 mil m², planejada para acomodar centenas de pessoas, em poucos meses, algo que, na visão dele, “só o coworking consegue fazer” pela estrutura pronta, capacidade de implantação e gestão integrada.

Ainda assim, Tiago reconhece os limites: quando o cliente exige altíssima customização, exclusividade total e/ou áreas muito grandes, o modelo tradicional tende a fazer mais sentido. “Exclusividade tem um preço.”

Brasil como peça estratégica no tabuleiro global

A Regus nasceu em 1989, na Bélgica, e chegou ao Brasil em 1995, em um movimento que, segundo Tiago, colocou o país como o primeiro mercado fora da Europa no grupo. Hoje, a IWG opera em 126 países, com milhares de unidades no mundo. No Brasil, o executivo afirma que a companhia vive um ciclo agressivo de expansão.

Ele relata que o Brasil está entre os 10 maiores mercados do grupo e reforça o potencial: comparado a países com volumes semelhantes, o número de unidades ainda é pequeno, abrindo espaço para crescimento acelerado. Para acelerar sem perder capilaridade, a estratégia combina dois motores, que são as franquias voltadas principalmente a proprietários com perfil de operação e infraestrutura e o rolling (conversão de operações existentes), onde incorpora coworkings locais à sua rede, aplica marca e motor comercial, mas mantém parte da estrutura já existente, num modelo que Tiago compara a um “marketplace” do flexível.

O que isso significa para Facility, Property e Workplace Management

A conversa com Tiago Alves deixa uma mensagem incômoda e útil, a de que o workplace virou uma equação de gente + risco + finanças + experiência. E quem insistir em resolver a crise de retenção com catraca e discurso vai perder talento para empresas que tratam espaço como serviço.

Na prática, a tendência que emerge é a do workplace como portfólio: um mix de casa, escritório flexível, hubs regionais e encontros intencionais, onde cultura se constrói com propósito (não com presença compulsória) e onde o real estate deixa de ser “tijolo” para virar “benefício”.

Porque, no fim, a pergunta não é “quantos dias no escritório?”. É que tipo de empresa as pessoas aceitam habitar, por escolha, não por obrigação!


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