Por Redação

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O consumo de energia deixou de ser apenas uma despesa operacional. Em muitas empresas, ele passou a ser tratado como variável estratégica ligada a custo, eficiência, risco regulatório e metas ambientais. Ao mesmo tempo, a expansão da geração distribuída, a digitalização dos sistemas elétricos e a pressão por redução de emissões aumentaram a complexidade da gestão energética.
Nesse cenário, o modelo de Energy as a Service, conhecido como EaaS ou “energia como serviço”, começa a ganhar espaço em diferentes segmentos corporativos. A proposta é transferir parte da complexidade técnica e operacional para parceiros especializados, por meio de contratos baseados em desempenho.
Em vez de investir diretamente em infraestrutura, operação e atualização tecnológica, a empresa contrata resultados. O pagamento pode estar ligado a indicadores como redução de consumo, eficiência operacional, disponibilidade de sistemas, economia financeira ou diminuição de emissões de carbono.
O que os relatórios mostram sobre o avanço do modelo
O relatório Energy as a Service, da Deloitte, aponta que o modelo vem sendo impulsionado pela necessidade de modernização da infraestrutura energética sem aumento expressivo de investimento inicial. O estudo destaca que empresas têm buscado soluções mais flexíveis para lidar com geração distribuída, armazenamento, eficiência energética e eletrificação.
Já a Wood Mackenzie indica que o mercado global de EaaS deve continuar crescendo à medida que organizações procuram reduzir exposição à volatilidade tarifária e acelerar metas de sustentabilidade sem assumir toda a gestão técnica internamente.
Os estudos sugerem que o interesse pelo modelo não está apenas na troca de fornecedor, mas na mudança da lógica contratual. Em vez de comprar energia ou equipamentos isoladamente, as empresas passam a contratar desempenho energético.
Do CAPEX para contratos baseados em resultado
Uma das mudanças mais relevantes apontadas pelos estudos está na migração de investimentos de capital para contratos operacionais. Em muitos projetos de EaaS, a empresa contratante evita altos desembolsos iniciais para implantação de sistemas de energia, automação, eficiência ou geração renovável.
O relatório Energy as a Service, da Schneider Electric, indica que contratos desse tipo podem incluir modernização de infraestrutura, gestão ativa de consumo, sistemas de monitoramento, energia solar, armazenamento em baterias, HVAC inteligente e otimização operacional.
Nesse modelo, parte do risco técnico e financeiro pode ser compartilhada com o fornecedor. A remuneração tende a estar associada à entrega efetiva de performance, como economia gerada ou metas de eficiência atingidas.
Para áreas de facility management, essa lógica pode alterar a forma de relacionamento com fornecedores de energia, utilidades e operação predial. Em vez de contratos focados apenas em manutenção ou fornecimento, o mercado começa a discutir contratos ligados a indicadores contínuos de desempenho.
Digitalização amplia capacidade de monitoramento
O avanço do EaaS também está associado à digitalização dos sistemas prediais e energéticos. Sensores, automação, medição em tempo real, inteligência analítica e integração de dados permitem acompanhar consumo, perdas, eficiência e comportamento operacional com mais precisão.
O estudo The Energy Transition, do IBM Institute for Business Value, aponta que a digitalização da infraestrutura energética tende a ampliar a capacidade de gestão preditiva e otimização operacional.
Na prática, isso pode permitir decisões mais rápidas sobre climatização, iluminação, operação de equipamentos, uso de energia renovável e controle de demanda. Também amplia a possibilidade de contratos vinculados a métricas verificáveis de desempenho.
Descarbonização aumenta pressão sobre os ativos
Outro fator que aparece nos relatórios é o peso crescente das metas ambientais sobre imóveis corporativos e operações. O estudo Decarbonizing the Built Environment, da JLL, aponta que edifícios respondem por parcela relevante das emissões globais de carbono, aumentando a pressão por eficiência energética e uso de fontes renováveis.
Esse cenário pode ampliar o interesse por contratos em que o fornecedor participe diretamente da entrega de metas de redução de emissões ou neutralização de carbono. Em vez de tratar sustentabilidade apenas como relatório, parte das empresas começa a conectar metas ambientais à operação dos ativos.
Os estudos também sugerem que a pressão regulatória e de investidores pode acelerar esse movimento, especialmente em setores com alto consumo energético ou presença relevante de ativos imobiliários.
O que o FM pode observar nesse movimento
Os relatórios analisados sugerem algumas mudanças relevantes para áreas de facility management, property e operações prediais. A primeira é que energia tende a deixar de ser apenas uma conta fixa e passar a integrar estratégias mais amplas de eficiência e desempenho.
A segunda é que contratos podem se tornar mais dependentes de indicadores contínuos de resultado. Economia gerada, disponibilidade operacional, redução de consumo e desempenho ambiental passam a ganhar peso nas negociações.
Outra possível consequência é a ampliação da integração entre operação predial, tecnologia, automação e gestão energética. Em edifícios mais digitalizados, consumo e operação deixam de ser temas separados.
Os estudos não indicam um modelo único. Algumas empresas podem optar por terceirizar grande parte da gestão energética. Outras podem manter operação própria e contratar apenas partes específicas da infraestrutura. Ainda assim, os relatórios sugerem que a lógica baseada em performance tende a ganhar espaço.
Congresso InfraFM discutirá o tema
O assunto será aprofundado na palestra Energia como serviço e o novo modelo para FM, no Congresso InfraFM 2026. A sessão contará com Kaio Pontini, gerente de Operações | Property Asset Management na Bernoulli Educação, e Bruno de Martini Anastácio, líder de Eficiência Energética & Utilidades na Tools Digital Services, do Santander.
A proposta da palestra é discutir como contratos baseados em performance energética podem alterar a relação das empresas com consumo, infraestrutura, eficiência operacional e metas de sustentabilidade.
Como construímos este material
Esta matéria foi desenvolvida com base nos estudos Energy as a Service, da Deloitte, Energy as a Service, da Schneider Electric, The Energy Transition, do IBM Institute for Business Value, e Decarbonizing the Built Environment, da JLL, além de análises da Wood Mackenzie sobre o avanço global do modelo de EaaS. Caso identifique alguma inconsistência ou queira sugerir novas pautas, entre em contato pelo e-mail [email protected].