Não falta metro quadrado no mercado logítico, mas há escassez do metro quadrado certo

Com demanda aquecida, pré-locações em alta e ocupantes mais exigentes, o setor logístico brasileiro vive um novo ciclo

Por Gilson Schilis

Não falta metro quadrado no mercado logítico, mas há escassez do metro quadrado certo

Gilson Schilis é CEO e fundador da Fulwood, uma das cinco maiores empresas do setor de condomínios logístico-industriais do Brasil.


O mercado brasileiro de galpões logísticos atravessa um ciclo de maturidade e seletividade. Não se trata apenas de um recorde na entrega de novos empreendimentos, mas de uma transformação estrutural no perfil da demanda e na qualidade exigida pelos ocupantes, bem como mudança do perfil do consumidor com a digitalização da economia.

Embora os números de 2026 indiquem forte volume de entregas, as estimativas apontam para um déficit de cerca de 500 mil m² de galpões que efetivamente atendam às necessidades mínimas dos inquilinos. Esse dado revela um ponto central, que é a diferença entre oferta técnica e oferta aderente.

A demanda segue aquecida, impulsionada pelo avanço do e-commerce, pela reconfiguração das cadeias produtivas, pela regionalização de estoques e pela busca crescente por eficiência operacional. Ao mesmo tempo, o mercado tornou-se mais criterioso. Localização estratégica, padrão construtivo elevado, eficiência energética, infraestrutura robusta e flexibilidade operacional deixaram de ser diferenciais e passaram a ser requisitos mínimos. A ocupação hoje não é apenas uma decisão imobiliária, mas operacional e estratégica.

O aparente paradoxo entre recorde de entregas e escassez de disponibilidade tem explicação clara. Uma parcela significativa dos novos projetos é desenvolvida sob demanda, no modelo built-to-suit (BTS), já com contratos firmados. Além disso, a pré-locação vem aumentando de forma consistente, reduzindo a vacância estrutural.

Na prática, o volume entregue não corresponde ao que está efetivamente disponível para absorção imediata, criando uma percepção de abundância que não se confirma no mercado. Isso porque a reserva de mercado de espaços logísticos é uma prática recorrente, permitindo a preferência de uso mediante a expansão da área, um atributo que chama a atenção dos operadores de e-commerce, que valorizam a oportunidade de expansão, levando em consideração planejamento estratégico e o aquecimento constante da demanda, impulsionado, sobretudo pela operação fullfilment.

O déficit, no entanto, não é generalizado. Existem aproximadamente 600 mil m² disponíveis em galpões que não atendem às exigências atuais do mercado, fora do padrão A ou A+, que são os empreendimentos de alto padrão, cujo nível de excelência em especificações técnicas é de ponta, reconhecidos a partir de atributos atrelados à tecnologia e à eficiência, tanto operacional, como energética. A classificação AAA representa o topo do mercado, aptos à obtenção de certificações sustentáveis, geralmente demandados por companhias que seguem os mais altos níveis de governança corporativa.

As operações logísticas tornaram-se mais tecnológicas e complexas. Pé-direito elevado, maior capacidade de carga de piso, docas adequadas, sustentabilidade, sistemas de segurança integrados e eficiência energética são premissas básicas atualmente. Galpões de padrão inferior geram ineficiências que, no longo prazo, custam mais do que um aluguel aparentemente inferior. A relação armazenagem, ou seja, o potencial de verticalização versus o investimento total na área é uma métrica importante e empreendimentos acima de 90% de taxa de eficiência com área de apoio, incluindo refeitórios e escritórios, permite o oferecimento de qualidade de vida aos colaboradores, que se converte também em retenção e fidelização da equipe, o que impacta diretamente na qualidade da operação.

Portanto, não se trata de falta de área construída, mas de falta de área qualificada. Esse desequilíbrio, aliado a um crescente aumento do preço dos terrenos e da construção, pressiona os valores de locação, especialmente em regiões consolidadas e com infraestrutura logística robusta. O movimento observado não é apenas de aumento nominal, mas de recomposição de patamares. Ativos bem localizados, tecnicamente superiores e eficientes tendem a capturar maior valorização. O mercado premia a qualidade, que resulta em agilidade operacional, fator valorizado sobretudo pelo e-commerce, que tem puxado a demanda.

Com a Selic em 14,75%, com a primeira redução de 0,25% após quase dois anos e o período eleitoral no horizonte, o custo de capital torna-se um fator determinante. Desenvolvedores estão mais seletivos, priorizando regiões com absorção comprovada e buscando maior segurança contratual antes de iniciar novas obras. Projetos especulativos diminuem, enquanto modelos com pré-locação ganham protagonismo. Investidores adotam maior disciplina na alocação de recursos, concentrando-se em ativos core e mercados consolidados, além de estruturarem parcerias e mecanismos de funding mais eficientes.

O cenário político naturalmente adiciona cautela às decisões de investimento. Ainda assim, o segmento logístico tem demonstrado resiliência por estar diretamente ligado à dinâmica da economia real, o que inclui a digitalização da sociedade. Decisões podem ser postergadas, mas não deixam de acontecer quando a demanda é concreta e contratualizada.

O principal desafio para os desenvolvedores é equilibrar custo de capital, timing de lançamento e absorção de mercado, ao mesmo tempo em que respondem à crescente pressão por sustentabilidade, certificações ambientais e eficiência operacional. A resposta está em planejamento de longo prazo, análise criteriosa de localização, gestão ativa de portfólio e construção de relacionamento sólido com inquilinos estratégicos.

O setor logístico não é um modismo e responde às transformações da economia. O ajuste que vivemos é entre oferta qualificada e demanda estruturada. Não é falta de metro quadrado. É falta do metro quadrado certo. E isso tende a valorizar quem planejou no longo prazo.

As projeções indicam que a Selic pode recuar para a faixa de 12,5% no fim de 2026, aproximando-se de 10,5% em 2027. Nesse cenário, projetos que hoje estão em compasso de espera tendem a ser reativados. Com custo de capital mais competitivo, o pipeline deve ganhar novo impulso a partir de 2027, ainda que de forma responsável e estratégica, mantendo o foco em qualidade, localização e aderência à demanda real. O setor deve continuar sólido, sustentado por fundamentos consistentes e por uma demanda que não é circunstancial, mas estrutural.

Líderes de audiência

Mercado

Woba lança agentes de IA para gestão imobiliária corporativa e aposta em nova fase do workplace

Plataforma apresentada durante a Expo InfraFM promete apoiar decisões ligadas a custos, operação e experiência dos colaboradores por meio de inteligência artificial aplicada ao real estate corporativo

Mercado

Congresso InfraFM 2026 começa com imersões em operações de referência

Primeiro dia do Congresso InfraFM foi marcado por visitas técnicas em empresas e operações de diferentes segmentos, proporcionando aos participantes uma visão prática sobre gestão de infraestrutura, manutenção, tecnologia, segurança, sustentabilidade e eficiência operacional

AstraZeneca traduz crescimento, bem-estar e brasilidade em novo escritório em São Paulo

Com 2.300 m² na Torre Jatobá, o novo escritório da AstraZeneca em São Paulo foi projetado para apoiar o modelo híbrido, priorizando colaboração, sustentabilidade, acessibilidade e bem-estar dos colaboradores, com elementos de brasilidade e gestão por

Operações

Perder o prazo do LEED pode adiar certificações estratégicas até 2027

Cronograma do GBCI mostra que projetos que buscam certificação antes da Greenbuild ou até o fim do ano precisam antecipar documentação, pagamento e análise técnica

Sugestões da Redação

Mercado

Real Estate em 2026. O que orienta a escolha entre ocupar, adaptar ou investir?

Relatório da JLL mostra como a redução da oferta de novos empreendimentos valoriza ativos de alta qualidade no mercado imobiliário global

Outside Work

Em 2026, sua casa terá um "CPF". Entenda o que é o Cadastro Imobiliário Brasileiro e como ele afe...

Um novo cadastro nacional vai reorganizar a forma como o Estado enxerga os imóveis no Brasil. A partir de 2026, essa mudança começa a impactar impostos, transações e a gestão patrimonial

Revista InfraFM

Quando saúde mental, liderança e Workplace viram estratégia de negócio

De Harvard a Oxford, passando por CEOs que já transformam lucro em bem-estar: Mind Summit mostra que o futuro das organizações não é sobre espaços para trabalhar, e sim sobre espaços que libertam o melhor das pessoas. Facilities & Workplace entram no centro da estratégia corporativa

Revista InfraFM

O engenheiro que também aprendeu a cuidar de prédios vivos

A arquitetura humana e tecnológica dos campi do Insper integra educação, convivência e networking

Revista InfraFM

O futuro já começou. Quem vai gerenciá-lo?

Projetando a sociedade do futuro para as nossas vidas

Revista InfraFM

Azul por dentro da operação que faz o Brasil voar

Infraestrutura que trata o avião como cliente e formação que sustenta a excelência operacional da companhia aérea