Do discurso à operação: a economia circular já chegou aos edifícios?

Pressão por eficiência, custo e metas ambientais avança, mas aplicação prática ainda revela desafios na gestão de ativos

Por Redação


Imagem: https://depositphotos.com/


A economia circular entrou no vocabulário corporativo, ganhou espaço em metas ESG e passou a aparecer com frequência em relatórios e planos de longo prazo. Quando o tema chega à rotina dos edifícios, ele já alterou de fato a forma como ativos são comprados, mantidos, substituídos e descartados?

Os dados sugerem que esse avanço ainda é desigual. O Circularity Gap Report 2024 aponta que apenas 7,2% da economia global opera hoje dentro de princípios circulares. Já o relatório Circular FM: The Role of the Circular Economy in Facility Management, publicado pela IFMA em 2024, afirma que o Facility Management já incorpora práticas ligadas à manutenção, reparo e extensão da vida útil dos ativos, mas que esse potencial ainda é pouco explorado de forma estruturada.

Esse descompasso ajuda a explicar por que o tema voltou a ganhar força. A circularidade deixou de ser apenas uma pauta ambiental e passou a atingir frentes mais concretas para quem opera edifícios, como eficiência, custo total de propriedade, uso de materiais, compras e valor residual dos ativos. O debate, nesse ponto, sai do campo conceitual e entra na cobrança por execução.

Onde a lógica linear ainda prevalece
Na gestão predial, a circularidade não depende apenas de diretriz institucional. Ela aparece em decisões rotineiras. Está na escolha entre reparar ou substituir, no desenho dos contratos, na especificação de materiais, no destino dado ao mobiliário desmobilizado, no reaproveitamento de componentes e no papel atribuído à manutenção ao longo do ciclo de vida do ativo.

O relatório da IFMA aponta que a adoção de práticas circulares ainda encontra obstáculos concretos. Entre eles estão modelos de negócio baseados em compra e descarte, falhas de dados, ausência de métricas de ciclo de vida e uma cultura operacional ainda orientada por lógica linear. Na prática, mesmo quando a circularidade aparece no planejamento estratégico, a operação segue respondendo a fatores mais imediatos, como custo de reposição, prazo de entrega e simplificação do processo de compra.

No ambiente construído, essa discussão ganha peso adicional. Segundo o mesmo relatório, edifícios e sua cadeia de construção, uso e demolição respondem por cerca de 40% das emissões globais de gases de efeito estufa. Isso faz com que decisões sobre manutenção, retrofit, materiais e substituição de ativos tenham impacto maior do que parecem à primeira vista. A circularidade, nesse contexto, passa a dialogar com risco, eficiência operacional e longevidade dos ativos.

O caso do Einstein
No Brasil, alguns exemplos mostram que a circularidade pode começar sem ruptura ampla na operação. O Hospital Israelita Albert Einstein gerava, em média, oito toneladas de resíduos têxteis por mês em 2024. Em parceria com a área de inovação e uma ONG, esses materiais passaram a ser transformados em bags, nécessaires e cases para notebook, depois adquiridos pela própria organização.

O caso chama atenção porque mostra a circularidade aplicada de forma direta. Em vez de permanecer no campo do compromisso institucional, ela aparece ligada a gestão de resíduos, reaproveitamento de materiais, cadeia de suprimentos e valor social. Em ambientes complexos como o hospitalar, esse tipo de decisão tende a produzir efeito mais visível, porque o custo do desperdício aparece com mais rapidez e a pressão por continuidade operacional é maior.

O peso do argumento econômico
Se a circularidade ainda avança devagar na prática, o argumento financeiro ajuda a explicar por que ela continua ganhando espaço na agenda. O relatório da IFMA cita análises segundo as quais modelos circulares no ambiente construído dos Estados Unidos podem gerar entre US$ 575 bilhões e US$ 1,1 trilhão em valor econômico, além de reduzir de 295 milhões a 538 milhões de toneladas de CO2 equivalente.

O dado reforça que não se trata apenas de reputação. Quando estruturada com critérios operacionais, a circularidade pode combinar melhor uso de recursos, redução de custos e captura de valor.

Esse entendimento também aparece em entidades ligadas ao ambiente construído. A World Green Building Council defende a circularidade como caminho para reduzir emissões e reorganizar o uso de materiais no setor. Já a Ellen MacArthur Foundation reforçou, em 2025, que a aplicação de princípios circulares em edifícios pode destravar valor econômico ao mesmo tempo em que responde a desafios relacionados a carbono, resíduos e volatilidade de insumos.

Como construímos este material
Este conteúdo foi desenvolvido com base no relatório Circular FM: The Role of the Circular Economy in Facility Management, publicado pela IFMA em 2024. Os links para as fontes estão indicados ao longo do conteúdo, conforme mencionados. Caso identifique alguma inconsistência ou queira sugerir novas pautas, entre em contato pelo e-mail [email protected]


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