Por Léa Lobo

Durante muito tempo, o Corporate Real Estate foi tratado em muitas organizações brasileiras como uma engrenagem silenciosa, importante, porém pouco reconhecida em seu verdadeiro peso estratégico. Essa leitura, francamente, já ficou pequena. Em um cenário em que portfólio imobiliário, workplace, tecnologia, governança, sustentabilidade e eficiência operacional passaram a influenciar competitividade, reputação e atração de talentos, o setor deixou de ser apenas suporte e passou a disputar protagonismo. É justamente nesse ponto que o CoreNet Global Brazil Chapter se posiciona com mais clareza ao estruturar seu Plano 2026 em três grandes frentes que se complementam e se fortalecem mutuamente: conteúdo e formação; relacionamento e negócios; presença institucional com conexão global.
A proposta da entidade é cristalina. Ampliar o acesso a conteúdo qualificado, acelerar a formação de lideranças e consolidar no Brasil uma comunidade executiva mais preparada para lidar com os desafios contemporâneos de Corporate Real Estate e Workplace. O plano prevê a realização de eventos ao longo do ano com temas prioritários como estratégia imobiliária, workplace, ESG, tecnologia, governança e finanças, além da estruturação de um programa educacional contínuo que conecte encontros, conteúdos e trilhas de desenvolvimento. Não é pouca coisa. É, na prática, uma tentativa madura de dar densidade a um mercado que ainda sofre com dispersão conceitual e falta de integração entre prática, formação e visão de longo prazo.
Outro movimento especialmente relevante é o fortalecimento das certificações globais da CoreNet, com estímulo direto à participação de profissionais brasileiros em programas internacionais como a MCR. Isso importa muito mais do que parece à primeira vista. Quando o Brasil aumenta sua presença nessas trilhas globais, ele não ganha apenas selo ou currículo bonito. Ganha linguagem comum, repertório internacional, critérios mais sofisticados de decisão e, sobretudo, capacidade de dialogar em igualdade com mercados mais maduros.
A segunda frente do plano mira um ponto decisivo para qualquer associação que queira ser relevante de verdade: comunidade. O Chapter quer fortalecer a base de membros ativos, ampliar a conexão entre executivos, consolidar encontros presenciais e aprofundar o relacionamento com empresas, parceiros e patrocinadores. Em outras palavras, quer deixar de ser apenas um guarda-chuva institucional e se afirmar como um ambiente produtivo de troca, influência e geração de oportunidades. Essa é uma ambição correta e necessária. Setores estratégicos não amadurecem sozinhos. Eles amadurecem quando pessoas, empresas e lideranças passam a compartilhar referências, problemas e soluções com mais método e menos improviso.
A terceira frente do CoreNet Global Brazil Chapter revela talvez sua vocação mais estruturante. A entidade pretende consolidar iniciativas institucionais, como a parceria com o Núcleo de Real Estate da Escola Politécnica da USP, aproximando o mercado da academia e contribuindo para a formação de futuros profissionais. Também projeta a criação de um Comitê de ESG, com foco em governança, sustentabilidade, boas práticas e impacto social no contexto de Corporate Real Estate. E, no plano internacional, quer ampliar a participação do Brasil em eventos globais da CoreNet, incentivar intercâmbio de conteúdo e fortalecer o posicionamento do Chapter brasileiro dentro da rede mundial da associação. A mensagem é que não basta discutir tendência em auditório elegante. É preciso construir ponte entre conhecimento, mercado, responsabilidade institucional e visão global.
Essa ambição ganha corpo porque a governança da entidade reúne executivos com trajetórias complementares e forte aderência aos temas que hoje pressionam a agenda do setor. A entidade conta com uma diretoria formada por dez executivos com atuação nas frentes de conteúdo, marketing, relacionamento, eventos e educação institucional, buscando diversidade de visões e alinhamento com a agenda global da associação.
À frente da presidência, Luiz Esposel simboliza bem essa conexão entre operação robusta, visão internacional e compromisso associativo. Como Senior Director of Real Estate and Facilities no segmento de TI, ele gerencia operações em 11 países das Américas, incluindo a América Latina e o headquarters global em Austin, no Texas, sob um escopo de cerca de 160 mil metros quadrados e atendimento a aproximadamente 12 mil funcionários. Em paralelo, atua voluntariamente como presidente do CoreNet, com o propósito de elevar a maturidade do mercado de Corporate Real Estate, promover integração entre lideranças e ampliar oportunidades de capacitação. Sua leitura para 2026 é objetiva e atual: a inteligência artificial será a grande catalisadora de excelência operacional, desde que aplicada a casos concretos, com foco em automação, redução de custos e geração de inteligência para o negócio. Mais do que uma frase de efeito, ele já transformou isso em ação prática ao estruturar um comitê gestor e um roadmap de IA dentro da organização em que trabalha.
Esposel também toca em um nervo exposto do setor ao afirmar que o maior gap de maturidade do mercado está na persistente visão do Real Estate como centro de custo, e não como parceiro estratégico. O próximo degrau, em sua avaliação, está na integração entre Real Estate, Workplace, RH e Tecnologia. É uma leitura certeira. Enquanto essas agendas continuarem apartadas, muitas empresas seguirão desperdiçando a capacidade transformadora do ambiente físico e da gestão imobiliária em temas como retenção de talentos, sustentabilidade, experiência dos usuários e rentabilidade corporativa.
Na vice-presidência, Rafael Camargo reforça esse mesmo eixo de reposicionamento estratégico. Diretor da área de soluções em demandas de Real Estate numa organização de auditoria, ele atua tanto na gestão do portfólio de transações imobiliárias da firma quanto no assessoramento de grandes corporações e proprietários de imóveis em decisões estratégicas de portfólio e projetos complexos. Na CoreNet, sua atuação voluntária está ancorada em um propósito claro de contribuir para a evolução do mercado e dos profissionais de Corporate Real Estate. Sua visão para 2026 destaca a consolidação do Workplace como ferramenta estratégica de negócios, ao mesmo tempo em que aponta uma confusão ainda recorrente no mercado brasileiro sobre o que, afinal, significa Workplace em profundidade. A criação do Comitê de Workplace da entidade, em 2025, nasce exatamente dessa necessidade de amadurecer a narrativa, alinhar entendimentos e elevar o debate.
Rafael também chama atenção para um tema essencial. O imobiliário corporativo ainda é visto por muitos como custo, quando deveria ser tratado como alavanca de valor, eficiência e competitividade. Essa mudança de mentalidade não é cosmética. Ela altera orçamento, governança, tomada de decisão e o espaço político da área dentro das organizações. E, convenhamos, já passou da hora de o setor parar de pedir uma cadeira emprestada na mesa das decisões e sentar como protagonista.
Na diretoria jurídica, Gustavo D'Acol Cardoso acrescenta uma dimensão que muitas vezes passa despercebida em debates mais operacionais, mas que é decisiva em mercados sofisticados. Como sócio administrador e fundador de seu escritório de advocacia, responsável pelas áreas contratual, imobiliária, tributária e paralegal, ele leva para a entidade uma visão de estrutura, segurança e integração regulatória. Fundador da CoreNet no Brasil, Gustavo ressalta que a atuação da entidade é voluntária e sem fins lucrativos, movida pelo propósito de desenvolver o universo de Corporate Real Estate e Facilities Management no país. Seu diagnóstico é direto. Grande parte das empresas nacionais ainda não enxerga Corporate Real Estate como algo que contribui efetivamente para o resultado, e os profissionais da área ainda não são valorizados à altura de sua participação nos processos decisórios. Quando um diretor jurídico diz isso com todas as letras, o mercado faria bem em prestar atenção.
Na frente de educação, Milton Jungman traz o peso de uma trajetória longa e respeitada. Após mais de 30 anos de carreira executiva em Corporate Real Estate, ele atua hoje como consultor independente e responde pela área de Educação da CoreNet, mantendo também vínculo com atividades acadêmicas desde a conclusão de seu mestrado em Gestão de Serviços. Seu depoimento é valioso porque conecta experiência de mercado, visão de formação e senso histórico. Jungman observa que a profissionalização, o amadurecimento e a educação dos profissionais são processos que vêm se consolidando ao longo dos últimos anos e que a entidade, com seus conteúdos e programas, desempenha papel central nessa evolução. Nessa linha, destaca o recém-lançado Programa de Educação Poli CoreNet como um pilar importante para empurrar o setor para um novo patamar. É exatamente esse tipo de iniciativa que diferencia associação protocolar de entidade transformadora.
Outro nome que ajuda a ampliar o alcance institucional do Chapter é Carlindo Macedo. Como gerente de Corporate Real Estate em uma empresa industrial de grande porte, com responsabilidade sobre portfólio imobiliário na América Latina, workplace strategy, facilities para sites comerciais e frotas corporativas, ele representa uma visão bastante prática dos desafios regionais. Carlindo aponta como tema inevitável para 2026 a evolução da sustentabilidade e das práticas de ESG em decisões concretas de portfólio, incluindo a priorização de imóveis flexíveis com certificações ambientais e o uso de tecnologias para reduzir impacto ambiental. Ao mesmo tempo, identifica como principal gap do mercado a resistência à adoção de tecnologias digitais no gerenciamento de espaços, defendendo a integração total dessas soluções como o próximo degrau da maturidade setorial. Sua intenção de atuar como mentor e articulador de comunidade conversa diretamente com o espírito do plano da entidade.
Na mesma linha de representatividade técnica e visão de mercado, Marcos Cesar, do setor imobiliário, contribui com uma leitura fortemente ancorada em escala, transações e gestão regional. Como diretor responsável por consultoria e gestão de transações, lidera o hub de gerenciamento de contas corporativas na América Latina, a divisão de serviços para ocupantes de escritórios no Brasil e a prática Agile na região. Seu time gerencia mais de 18 milhões de metros quadrados em carteiras administradas e transaciona aproximadamente 350 mil metros quadrados por ano de escritórios no país. Sua percepção sobre o impacto da IA na gestão de grandes portfólios e nas decisões de workplace reforça um consenso que emerge no conjunto dos depoimentos. O Corporate Real Estate de 2026 será, inevitavelmente, mais digital, mais orientado por dados e menos tolerante a decisões baseadas apenas em intuição ou costume.
Somam-se a esse grupo de lideranças outros seis diretores que, em regime voluntário, consolidam a pluralidade técnica da gestão estratégica: Fabiana Toyoda, Raquel Dias, Tania Costa, João Paulo de Carvalho e Juliana Dias. A atuação desse coletivo é o que garante a execução das verticais de marketing, eventos e relacionamento, fundamentais para que o Plano 2026 alcance a capilaridade desejada junto aos membros e parceiros do setor.
Ao reunir essas vozes, o CoreNet Global Brazil Chapter dá um recado importante ao mercado brasileiro. Corporate Real Estate não pode mais ser visto apenas como uma disciplina de suporte, e Workplace não pode continuar sendo tratado como um conceito difuso que cada empresa interpreta do seu jeito. O setor precisa de método, linguagem comum, formação continuada, articulação institucional e conexão internacional. E é exatamente nesse cruzamento que a entidade pretende atuar em 2026.
Do ponto de vista setorial, a importância da CoreNet Global Brazil Chapter é grande porque ela ocupa um espaço raro: o de ponte. Ponte entre executivos e conhecimento. Entre mercado e academia. Entre realidade local e repertório global. Entre urgências operacionais e visão estratégica. Em um país onde o CRE ainda luta por reconhecimento pleno dentro de muitas organizações, uma entidade com capacidade de reunir lideranças, organizar debate qualificado, fomentar certificação, criar comitês temáticos e estimular a profissionalização tem potencial real de acelerar maturidade e reposicionar a área no centro das decisões empresariais.
No fim das contas, o que o Plano 2026 revela é uma entidade que não quer apenas existir institucionalmente. Quer influenciar, formar, conectar e elevar o nível do debate em Corporate Real Estate no Brasil. E isso, para um setor que ainda busca mais protagonismo e reconhecimento, não é detalhe. É estrutura. É direção. E, acima de tudo, é necessidade.