Por Léa Lobo

No último dia 17 de março, o Talks Nexti reuniu, em São Paulo, lideranças de Facilities, RH e jurídico para discutir um tema que vem ganhando protagonismo nas organizações, que são as transformações nas relações trabalhistas e seus impactos diretos na operação e nos resultados das empresas. Com uma programação que conectou visão jurídica, institucional e operacional, o evento evidenciou um ponto comum entre todas as discussões, como o ambiente de trabalho está mudando rapidamente e como a gestão precisa acompanhar essa evolução com mais estratégia, dados e responsabilidade.
NR-1 e o novo centro do risco trabalhista
A abertura do evento ficou a cargo do juiz do trabalho Marlos Melek, que trouxe um alerta direto ao público sobre a atualização da NR-1 representa uma virada relevante na forma como as empresas precisarão lidar com a saúde mental no ambiente corporativo. Até então tratada majoritariamente como uma pauta de orientação, a norma passa a ter caráter punitivo a partir de 25 de maio de 2026, quando começam a ser aplicadas multas com base na NR-28. A mudança é impulsionada por um cenário preocupante: quase 500 mil afastamentos por doenças psicossociais e um impacto estimado de R$ 3 bilhões.
Mais do que um tema de bem-estar, a saúde mental passa a ocupar um espaço estratégico. Segundo Melek, ela se consolida como uma questão jurídica e financeira, exigindo das empresas uma nova postura de prevenção e controle. O grande desafio está na natureza dessas doenças. Diferente das condições físicas, os transtornos psicossociais possuem diagnóstico subjetivo e exigem uma análise mais ampla, que considera não apenas o ambiente de trabalho, mas também o contexto pessoal do colaborador. Nesse cenário, ganha relevância o conceito de concausa, no qual a empresa pode ser responsabilizada mesmo quando não é a origem do problema, mas contribui para o seu agravamento.
Outro ponto crítico é o papel da perícia médica. Na prática, o laudo técnico tende a orientar a decisão judicial, tornando essencial que empresas estejam preparadas, com documentação consistente e suporte técnico adequado. O magistrado também chamou atenção para práticas ainda comuns nas organizações que ampliam significativamente o risco trabalhista, como exposição de colaboradores em metas, assédio moral, jornadas exaustivas e ambientes desrespeitosos. O alerta é claro: o problema não está na meta, mas na forma como ela é cobrada. Diante desse cenário, a prevenção se torna o principal caminho. Treinamentos formais, programas estruturados de gestão de riscos e registros consistentes deixam de ser diferenciais e passam a ser elementos essenciais de proteção jurídica. A mensagem final foi objetiva: prevenir custa menos do que indenizar.
A intenção social e os riscos operacionais da PEC 8/2025
Na sequência, o painel com João Diniz(Presidente Cebrasse), Vanessa Machado (Diretora Abseg) e Eduardo Pastore (Assessor Jurídico noFecomercio) trouxe uma análise crítica sobre a PEC 8/2025, de autoria da deputada Erika Hilton. A proposta, que prevê a redução da jornada semanal para até 36 horas e a eliminação de modelos como a escala 6x1, foi debatida sob a ótica prática do setor de serviços, especialmente aqueles que operam de forma contínua, como segurança, saúde e facilities.
O principal ponto de convergência entre os painelistas foi a defesa da negociação coletiva como caminho mais adequado para tratar jornadas e escalas. A padronização por meio constitucional, segundo eles, ignora as especificidades de cada setor e pode comprometer a flexibilidade necessária para a operação. Outro ponto sensível está no impacto econômico. A redução da jornada pode representar um aumento imediato de até 20% na folha de pagamento, especialmente em atividades intensivas em mão de obra, o que levanta dúvidas sobre a capacidade de repasse desses custos ao cliente final. Como consequência, foram apontados riscos como aumento de preços, substituição de trabalhadores, crescimento da informalidade e pressão sobre as margens.
A discussão também trouxe um contraste importante com a experiência internacional. Em países da OCDE, a redução da jornada ocorreu após ganhos consistentes de produtividade. No Brasil, a proposta caminha no sentido inverso, o que pode gerar desequilíbrios. Outro alerta relevante foi o risco de engessamento. Por se tratar de uma alteração constitucional, a medida tende a ter pouca flexibilidade para ajustes futuros, o que pode limitar a capacidade de adaptação das empresas ao longo do tempo.
Apesar das críticas, houve consenso de que a redução da jornada é um objetivo legítimo. No entanto, o caminho defendido passa por implementação gradual, negociação setorial e evolução da produtividade, evitando soluções uniformes e imediatas.
Os custos invisíveis da operação, conhecidos como os “boletos ocultos”
Encerrando o evento, o anfitrião e CEO da Nexti, Marcelo Gomes, trouxe uma abordagem provocativa e prática ao discutir o impacto financeiro da gestão trabalhista nas empresas. A partir de uma pergunta simples, de quanto custa a ineficiência, a não conformidade e o desengajamento por colaborador, ele apresentou um dado que chamou atenção: cerca de R$ 5 mil por ano por colaborador. Em empresas de grande porte, isso pode representar milhões em perdas silenciosas.
Esses custos, segundo ele, estão concentrados em três frentes principais: falhas operacionais, erros trabalhistas e baixo engajamento. Juntas, essas variáveis corroem diretamente a margem das empresas, muitas vezes sem que isso seja percebido. Um dos pontos mais fortes da fala foi o papel do RH. Para Gomes, a área precisa evoluir para além do discurso humanizado e incorporar uma visão orientada a resultados, traduzindo processos e decisões em impacto financeiro. Sem essa conexão, o RH perde relevância estratégica dentro das organizações. Ele também destacou dois dos maiores vilões desse custo invisível, que são o turnover e as horas extras. A substituição de um colaborador pode custar até um ano de salário, considerando perda de produtividade e tempo de adaptação. Já as horas extras, além do custo direto, geram impactos indiretos que comprometem a eficiência e aumentam riscos.
Outro dado relevante foi que grande parte das ações trabalhistas decorre de falhas operacionais simples, como controle inadequado de jornada, ou seja, problemas evitáveis com melhor gestão. Diante da crescente complexidade das operações, Gomes defendeu o uso de tecnologia integrada e dados em tempo real como ferramenta essencial para garantir controle, previsibilidade e eficiência. No entanto, fez uma ressalva importante: tecnologia não resolve problemas sozinha, ela potencializa a gestão.
Um novo papel para a gestão trabalhista
O Talks Nexti evidenciou uma transformação clara no papel das relações de trabalho dentro das empresas. A combinação entre novas exigências regulatórias, discussões estruturais sobre jornada e desafios operacionais crescentes aponta para um novo cenário.
Nesse contexto, a gestão trabalhista deixa de ser apenas uma função de compliance e passa a ocupar um espaço estratégico, diretamente conectado à sustentabilidade financeira e à competitividade das organizações. Para empresas intensivas em mão de obra, como as de Facilities, o alerta é antecipar riscos, estruturar processos e tomar decisões baseadas em dados não é mais uma escolha, é uma necessidade!