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O lixo, os ônibus e o Tietê: o que São Paulo revela sobre a crise climática

No Fórum da Cebrasse, especialistas defendem ação integrada e rápida para conter o colapso ambiental urbano

Por Mateus Murozaki

O lixo, os ônibus e o Tietê: o que São Paulo revela sobre a crise climática

Foto: Divulgação

Em um cenário onde a crise climática já não é mais uma ameaça futura, mas uma realidade concreta, o setor público começa a assumir um papel mais ativo — e cobrado — na condução de ações sustentáveis. Foi essa a tônica do painel “As ações do setor público impulsionando a percepção sustentável da sociedade”, realizado no Fórum de Sustentabilidade do Setor de Serviços, promovido pela Cebrasse.

Com mediação de Lívio Giosa, diretor de políticas ambientais da entidade, o debate contou com a participação de José Renato Nalini, secretário executivo de mudanças climáticas de São Paulo, e do médico e ambientalista Gilberto Natalini, ambos com histórico direto na construção de políticas ambientais na capital paulista.

Emergência climática: não se trata mais de previsão

Renato Nalini foi enfático: “Não falamos mais de mudança climática. Falamos de emergência climática.” Para ele, a intensificação dos eventos extremos e a deterioração da qualidade ambiental em áreas urbanas são reflexo direto de políticas públicas atrasadas — ou inexistentes. São Paulo, segundo o secretário, é um exemplo dramático disso. Com rios canalizados, crescimento desordenado e déficit crônico de infraestrutura verde, a cidade sofre as consequências de décadas de decisões que ignoraram o território.

“O Tietê não transborda. Ele apenas toma de volta o que era dele”, resumiu. A resposta da gestão atual, segundo Nalini, tem sido trabalhar a transversalidade da pauta ambiental dentro da estrutura pública. Criada em 2021, a Secretaria Municipal de Mudanças Climáticas tem como missão forçar todas as outras pastas a incorporarem a agenda do clima em suas políticas e metas.

Entre os principais focos da pasta estão a preservação da água, com ações contra a ocupação irregular da região da Guarapiranga, a substituição progressiva da frota de ônibus por modelos elétricos e a biometano, e o combate ao desperdício de resíduos sólidos, problema que afeta diretamente a qualidade de vida urbana. “São Paulo produz 15 mil toneladas de lixo por dia e recicla menos de 4%. Isso é uma tragédia que a sociedade ainda não assimilou”, disse Nalini.

A conta chegou — e é mais alta do que se previa

Gilberto Natalini, que também foi secretário do clima e vereador em São Paulo, reforçou que a gravidade da situação ambiental já superou todas as projeções. “Os cientistas erraram o prognóstico. Disseram que o impacto viria no final do século. Mas a emergência climática já chegou — e o planeta está na UTI.”

Natalini destacou que ainda há saída, mas ela exige tratamento de choque. “O receituário está pronto. Falta vontade política e envolvimento da sociedade. É preciso plantar árvores, mudar matrizes energéticas, investir em economia circular. E o setor de serviços pode e deve estar à frente disso.”

Para ele, não se trata apenas de reduzir danos ambientais, mas de transformar a sustentabilidade em vetor de desenvolvimento. “A transição para a economia verde não é um fardo. É uma enorme oportunidade de gerar empregos, inovação e saúde pública.”

O desafio da comunicação e do engajamento

Um ponto sensível apontado por ambos os painelistas foi a baixa capacidade do poder público de comunicar suas ações positivas. Mesmo com avanços concretos — como a expansão da frota de ônibus elétricos, projetos de reflorestamento urbano e planos de descarbonização —, essas iniciativas muitas vezes não alcançam a percepção pública.

“A mídia tradicional foca na tragédia. E, sem comunicação eficiente, o cidadão não se envolve”, disse Nalini. Por isso, ambos defendem a democracia participativa como ferramenta essencial para que a sociedade assuma protagonismo e passe a agir junto ao Estado. Conselhos, audiências públicas, iniciativas locais de plantio e educação ambiental foram citados como caminhos reais de engajamento.

Políticas públicas entre o exemplo e o retrocesso

Ao final, Natalini foi direto ao ponto: “O setor público pode liderar pelo exemplo — mas também pode frustrar a sociedade quando age na direção contrária.” Ele citou dois casos emblemáticos: o avanço no Congresso de projetos que desmontam a legislação ambiental brasileira e a tentativa recente da Câmara Municipal de São Paulo de revogar a Lei Cidade Limpa, considerada uma das políticas urbanas mais bem-sucedidas da capital.

Ao mesmo tempo, destacou iniciativas positivas, como a formação do comitê paulistano para a COP30, do qual faz parte. “São Paulo está construindo um documento verdadeiro, com base em escuta e diagnóstico real da cidade. Isso é exemplo.”



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