Experts InfraFM — Mudança física e novo modelo de ocupação: adoção e pragmatismo ou projeto de FM?

Obra pronta, layout definido, operação em curso. Mas isso basta? Uma leitura sobre o que realmente sustenta o resultado em mudanças de workplace baseada em cases reais de Prosci e Ifood
Experts InfraFM

Edição 12 - Abril de 2026
Conteúdos exclusivos, de revisão técnica e ampliação conceitual para profissionais de FM cativos do Congresso InfraFM


➔ Disclaimer
Este material faz parte do programa de relacionamento Experts InfraFM. Trata-se de revisões breves e bastante práticas que aprofundam questões técnicas e análises gerais sobre temas que permeiam a vida profissional dos FM's brasileiros. São conteúdos revisados de edições passadas do Congresso InfraFM e materiais diversos que selecionamos sempre que fizer sentido para discussão. O acesso a este arquivo é garantido aos congressistas que estiveram conosco na última edição do evento e aos que já adquiriram seus tickets para 2026.

➔ Proposta de reflexão
O que sustenta o resultado de um projeto de mudança em Facilities depois da entrega técnica? Em mudanças de workplace, consolidação de escritórios ou adoção de novos modelos de uso, o desempenho da operação passa a depender não apenas da solução implantada, mas da forma como líderes e usuários incorporam essa mudança na rotina.

Durante o Congresso InfraFM 2025, Adrian Ferraz, Senior Client Solutions, Prosci, apresentou os fundamentos de gestão da mudança aplicados a projetos corporativos. No mesmo palco, Marcos Morgado, Head de RH, iFood, relatou decisões de transformação de workplace que envolveram redefinição de ocupação, desmobilização de escritórios e leitura contínua do comportamento das equipes.

Não se tratou do mesmo projeto apresentado em dupla. Foram duas palestras diferentes que, observadas em conjunto, apontam para o mesmo problema operacional: em projetos de mudança com impacto sobre o uso dos espaços, o resultado deixa de depender apenas da implantação física e passa a depender da adoção do novo modelo pelas pessoas.

➔ O que os cases evidenciaram na prática
Tanto os fundamentos apresentados pela Prosci quanto o caso relatado pelo iFood partiram de decisões estruturadas, com objetivos claros e base técnica consistente. O ponto crítico, porém, não estava apenas na execução da mudança. Estava na passagem entre a solução desenhada e o uso real dessa solução na operação.

Na apresentação da Prosci, Adrian Ferraz destacou que projetos só capturam plenamente seus benefícios quando a mudança é adotada e utilizada de forma consistente pelos públicos impactados. Nesse raciocínio, a entrega técnica é condição necessária, mas insuficiente. O resultado depende também de patrocínio visível, atuação das lideranças e preparação das pessoas para operar no novo contexto.

Na palestra do iFood, Marcos Morgado mostrou esse desafio em situações concretas de workplace. As decisões sobre desmobilização de escritórios e evolução para modelos mais flexíveis não foram tratadas apenas como pauta imobiliária. A análise envolveu perfil das equipes, localização das pessoas, natureza do trabalho, dinâmica de presença, clima organizacional e leitura dos impactos sobre a experiência de uso.

É aí que as duas palestras convergem. O projeto, neste caso, não é apenas a mudança física, a revisão de layout, a consolidação de áreas ou a redefinição do modelo de ocupação. O projeto é a transição completa entre um padrão antigo de uso e um novo padrão operacional. E essa transição depende de coordenação entre áreas, leitura de contexto e adesão dos públicos impactados.

Para Facilities Management, isso amplia o escopo da função. A área deixa de atuar somente na entrega da infraestrutura e passa a participar da estabilização do novo modelo de uso. O projeto não termina quando a solução entra em funcionamento. Ele se completa quando a operação consegue sustentar o resultado esperado com aderência, previsibilidade e menor atrito.

➔ Liderar quando os protocolos não dão conta do cenário
A contribuição da Prosci ajuda a dar nome a esse problema. Projetos falham menos por ausência de desenho técnico e mais por dificuldade de adoção. Em mudanças de workplace, isso significa que cronograma, CAPEX, layout e indicadores de ocupação não bastam para garantir resultado. Sem liderança ativa, comunicação coerente e leitura dos grupos impactados, a organização até executa a mudança, mas não necessariamente consolida seu efeito na rotina.

A pesquisa consolidada da instituição mostra que patrocínio ativo e visível continua entre os principais fatores de sucesso em iniciativas de mudança, enquanto a baixa preparação de gestores compromete diretamente a adoção. O ponto é relevante para FM porque projetos de ocupação, consolidação ou redesenho do ambiente de trabalho frequentemente dependem de decisões que atravessam infraestrutura, gestão de pessoas e operação cotidiana.

Esse diagnóstico encontra paralelo em estudos mais amplos. A McKinsey aponta que o volume de mudanças simultâneas nas organizações aumentou significativamente na última década, elevando a competição por atenção e reduzindo a capacidade de absorção das equipes. Nesse contexto, projetos deixam de falhar apenas por erro de concepção e passam a perder força por saturação organizacional.

O relato do iFood mostra a mesma questão sob outro ângulo. Ao tratar decisões sobre ocupação e presença como tema de cultura, operação e negócio ao mesmo tempo, a palestra desloca Facilities de uma função predominantemente executora para uma função integradora. A área passa a participar de uma agenda que envolve uso real, comportamento coletivo e consistência entre decisão corporativa e prática cotidiana.

Esse ponto também impacta diretamente empresas prestadoras de serviços em Facilities. Em muitos contratos, o êxito da operação deixa de depender apenas do SLA técnico e passa a exigir aderência do usuário final ao modelo implantado. Quando isso não é considerado, o projeto pode ser entregue formalmente, mas o resultado operacional permanece instável.

➔ Aprendizados organizacionais a partir do caos
As duas palestras indicam que momentos de transição funcionam como teste de maturidade organizacional. Não apenas do ponto de vista técnico, mas na capacidade de alinhar cultura, governança e operação.

Três aprendizados aparecem com clareza nesse tipo de iniciativa. O primeiro é que entrega não equivale a adoção. Um projeto pode cumprir escopo, prazo e investimento previsto e, ainda assim, não consolidar o padrão de uso esperado. O segundo é que liderança intermediária tem papel decisivo na estabilização da mudança. São os gestores diretos que traduzem o novo contexto para as equipes e reduzem ruídos na rotina. O terceiro é que FM passa a operar com uma camada adicional de responsabilidade: não apenas garantir a infraestrutura disponível, mas acompanhar se ela está sendo efetivamente incorporada à prática diária.

Relatórios recentes da Deloitte mostram que organizações com maior capacidade de adaptação e integração entre áreas respondem melhor a cenários de mudança contínua. Já estudos da Gensler e da JLL indicam que o ambiente de trabalho passou a influenciar diretamente engajamento, permanência e desempenho. Isso amplia a responsabilidade da área de Facilities sobre resultados que antes eram atribuídos exclusivamente a outras funções.

Nesse cenário, o gestor de Facilities evolui de responsável por infraestrutura para agente de consistência operacional. A função passa a atuar na tradução entre estratégia e uso real, garantindo que decisões tomadas em nível executivo se sustentem na prática cotidiana.


➔ Referências normativas e de mercado
A ISO 41001 ajuda a posicionar a gestão de Facilities como função alinhada aos objetivos da organização, conectando ambiente, serviços, usuários e desempenho. Em projetos de mudança, isso desloca o foco da entrega física para a sustentação do resultado na operação.

Essa visão se articula com a ISO 9001, ao reforçar gestão por processos, evidências e melhoria contínua, e com a ISO 30401, ao incorporar o aprendizado gerado durante a mudança como parte da governança organizacional. Em conjunto, esses referenciais mostram que, em Facilities Management, a execução não depende apenas de implantação técnica, mas da capacidade de transformar mudança em rotina e uso em desempenho.

Imagem: https://depositphotos.com/br/170571032


➔ Playbook Rápido
• Tratar adoção como parte do projeto, e não como consequência automática da entrega
• Diferenciar entrega física de consolidação do novo padrão de uso
• Mapear stakeholders por influência real sobre comportamento e rotina operacional
• Incluir lideranças diretas na tradução da mudança para as equipes impactadas
• Cruzar indicadores de ocupação com leitura de contexto, clima e experiência de uso
• Integrar Facilities, RH e liderança na governança da transição
• Revisar o projeto a partir do comportamento observado após a implantação
• Considerar estabilização operacional como etapa do resultado, e não apenas como pós-obra

➔ Métricas & ROI
• Tempo de estabilização da operação após a mudança
• Diferença entre ocupação projetada e uso real do espaço
• Volume de retrabalho e reclamações no pós-implantação
• Aderência ao novo modelo de uso ou presença
• Engajamento das equipes impactadas
• Impacto financeiro da baixa adoção sobre o resultado esperado
• Tempo necessário para captura efetiva dos benefícios previstos
• Evolução da maturidade de Facilities na gestão da transição operacional


➔ Perguntas para levar à sua equipe
• Em quais projetos estamos entregando infraestrutura, mas não consolidando resultado?
• Onde a operação ainda depende de adaptação informal para funcionar depois da mudança?
• Quem está conduzindo a adoção do novo modelo em cada iniciativa?
• Estamos medindo entrega física ou uso real?
• A liderança direta está preparada para sustentar a transição?
• Como Facilities, RH e negócio estão compartilhando a governança dessas mudanças?


➔ Citações
Prosci — Best Practices in Change Management, 2023
McKinsey — Change is changing, 2025
Deloitte — Global Human Capital Trends, 2026
Gensler — Global Workplace Survey, 2025
JLL — estudos globais sobre workplace e modelos híbridos, 2025
ISO 41001 — Facility Management Systems, 2018
ISO 9001 — Quality Management Systems, 2015
ISO 30401 — Knowledge Management Systems, 2018


➔ Como construímos este material
Conteúdo baseado nas palestras apresentadas por Adrian Ferraz, Senior Client Solutions, Prosci, e Marcos Morgado, Head de RH, iFood, durante o Congresso InfraFM 2025. As apresentações não trataram do mesmo projeto, mas foram lidas editorialmente em conjunto por convergirem em um mesmo desafio de gestão: a necessidade de sustentar, na operação, o resultado de mudanças que alteram o uso dos espaços e a rotina das equipes. O material foi ampliado com pesquisas e estudos recentes sobre gestão da mudança, workplace e maturidade organizacional aplicada a Facilities Management


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