Por Leonardo Faria

| Leonardo Faria, diretor de Infraestrutura Predial da Paschoalotto Serviços Financeiros S/A |
Quando pensamos em uma operação de call center, normalmente associamos sua estrutura a pessoas, tecnologia, sistemas e atendimento. Mas existe um ecossistema que trabalha silenciosamente nos bastidores e é determinante para que tudo funcione: a Engenharia de Facilities. Mais do que manter prédios e equipamentos em operação, Facilities conecta engenharia, pessoas, processos, segurança, tecnologia, conformidade e dados para garantir continuidade, eficiência e segurança.
Nesse universo estão manutenção, projetos, segurança do trabalho e patrimonial, monitoramento, transporte, alimentação, limpeza, almoxarifado, controle patrimonial, além de auditorias, certificações, requisitos regulatórios e toda a gestão documental necessária para manter uma grande operação em conformidade. São atividades diferentes, mas conectadas por uma mesma missão, a de garantir que o negócio continue funcionando.
Em um call center, isso ganha ainda mais relevância. Uma falha de energia, climatização ou controle de acesso pode afetar centenas de posições simultaneamente. Em poucos minutos, um problema predial deixa de ser apenas técnico e passa a gerar impacto operacional, financeiro e até na experiência do cliente.
Do dado à inteligência de negócio
Uma operação dessa dimensão produz informações o tempo inteiro: ordens de serviço, históricos de equipamentos, consumo de energia, acessos, telemetria, contratos, indicadores, documentos, auditorias e planos de ação. O desafio já não é produzir mais dados, mas conectá-los, interpretá-los em contexto e transformá-los em decisões.
É justamente nesse ponto que vejo a Inteligência Artificial ampliando a fronteira de Facilities. Seu potencial não está somente em automatizar tarefas ou responder perguntas, mas em relacionar informações e ajudar a compreender o comportamento da infraestrutura diante das necessidades do negócio. Quando dados de manutenção, energia, ocupação, segurança, patrimônio, custos e fornecedores passam a conversar entre si, deixamos de perguntar apenas “o que aconteceu?” e avançamos para questões mais importantes, como o que está prestes a acontecer? Qual será o impacto? E qual decisão oferece o melhor equilíbrio entre risco, custo e disponibilidade?
Infra I.A. aproximando inteligência e operação
Foi dentro desse cenário que começamos a desenvolver o projeto Infra I.A., uma iniciativa que busca aproximar a Inteligência Artificial da realidade da infraestrutura. A proposta vai além de consolidar indicadores. Buscamos criar uma inteligência capaz de reconhecer relações entre variáveis técnicas, operacionais, patrimoniais, financeiras e documentais para apoiar decisões de forma mais rápida e qualificada.
Uma alteração no comportamento de determinado equipamento, combinada às condições ambientais, à ocupação e ao histórico operacional, por exemplo, pode indicar mais do que uma falha técnica. Pode sinalizar um risco de indisponibilidade e permitir uma intervenção antes que haja impacto na operação. Da mesma forma, informações sobre manutenção, consumo, vida útil, criticidade e custos podem ajudar a responder questões como, onde investir primeiro, quais ativos representam maior risco e onde há oportunidades de eficiência.
A mesma lógica pode chegar à governança, relacionando documentos, evidências, auditorias e requisitos regulatórios para tornar a gestão de riscos mais contínua. Nesse estágio, a IA deixa de ser apenas uma ferramenta para Facilities e passa a contribuir para continuidade operacional, eficiência financeira, gestão de riscos e decisões de investimento.
IA conhece os dados e o gestor de FM conhece o contexto
Prever uma falha já é um avanço. Mas acredito que podemos caminhar para uma infraestrutura cada vez mais cognitiva, capaz de aprender com seu histórico, identificar padrões e apoiar decisões continuamente. Com a integração entre Inteligência Artificial, sensores, automação, sistemas prediais e dados corporativos, a infraestrutura poderá não apenas informar uma condição, mas recomendar respostas, sempre dentro de parâmetros estabelecidos de segurança e governança.
Em um call center, uma decisão sobre infraestrutura pode influenciar disponibilidade de posições, produtividade, experiência dos colaboradores, compromissos com clientes e custos operacionais. Por isso, antecipar uma situação crítica não significa simplesmente evitar uma manutenção corretiva. Pode representar preservar capacidade operacional, níveis de serviço e resultados financeiros. E talvez seja esse o ponto em que Facilities precise mudar a pergunta: em vez de discutir somente quanto custa manter um prédio, precisamos compreender quanto valor uma infraestrutura bem gerida é capaz de proteger e gerar para o negócio.
A Inteligência Artificial não substitui o conhecimento de quem conhece a operação, os ambientes e seus riscos. Ela amplia a capacidade desse profissional de enxergar relações, antecipar cenários e tomar decisões melhores. A IA conhece os dados. O profissional de Facilities conhece o contexto. É a combinação dos dois que transforma informação em inteligência para o negócio. Enquanto milhares de pessoas estão concentradas em atender e se relacionar com clientes, existe uma infraestrutura complexa trabalhando para que elas possam simplesmente fazer seu trabalho. Talvez esse seja um dos melhores indicadores de um Facilities eficiente, pois quando existe uma enorme complexidade nos bastidores e, para o usuário, tudo simplesmente funciona. Os bastidores continuarão existindo. A diferença é que estão ficando cada vez mais conectados, inteligentes e estratégicos para o futuro do negócio.