Por Léa Lobo

Foto: Juan Moccagatta, by Pexels |
Os alertas emitidos por centros meteorológicos nacionais e internacionais indicam a possibilidade de fortalecimento do El Niño nos próximos meses, cenário que pode elevar a ocorrência de eventos climáticos extremos em diferentes regiões do planeta. No Brasil, os impactos podem incluir chuvas intensas, ventos fortes, ondas de calor e períodos prolongados de estiagem e incêndios, com características e intensidades distintas em cada região do país.
Embora o fenômeno seja acompanhado principalmente pelos setores de meteorologia e agricultura, seus efeitos também alcançam diretamente a infraestrutura das edificações, a segurança das pessoas e a continuidade das operações. Para os profissionais de Facility Management, portanto, o momento é de prevenção e planejamento.
Cada vez mais, os gestores de facilities assumem um papel estratégico na preparação das organizações para enfrentar riscos climáticos, reduzindo possíveis impactos sobre pessoas, ativos, processos e negócios. A adoção de um plano preventivo, estruturado de acordo com as características de cada empreendimento, pode diminuir significativamente os riscos de interrupção das atividades.
Alexandre Roxo, CEO da RV Gestão, empresa responsável pela administração de diferentes propriedades no Rio de Janeiro, já iniciou reuniões preventivas com sua equipe. Como várias das edificações sob sua gestão possuem fachadas seladas, os sistemas de climatização, por exemplo, tornam-se elementos centrais para o funcionamento dos ambientes.
“Reunimos todos os prestadores de serviços envolvidos no processo de produção de água gelada, incluindo as equipes responsáveis pela manutenção, operação, bombas e torres de resfriamento. Estamos fazendo um dever de casa preventivo e estruturando os planos emergenciais que poderão ser necessários”, explica Roxo.
Entre as principais ações recomendadas estão a revisão de chillers e torres de resfriamento, a limpeza de filtros e serpentinas, a verificação dos níveis de fluido refrigerante, a calibração dos sistemas de automação predial e a avaliação da eficiência energética dos equipamentos. Além de garantir o conforto térmico, essas medidas contribuem para reduzir o consumo de energia justamente nos períodos em que a demanda pelos sistemas de climatização tende a aumentar.
“A preparação também deve incluir uma análise detalhada da estrutura física dos imóveis. A inspeção de coberturas, telhados, fachadas e sistemas de impermeabilização pode identificar vulnerabilidades antes da chegada de chuvas intensas. Da mesma forma, a limpeza de calhas, ralos, canaletas e sistemas de drenagem ajuda a evitar alagamentos e infiltrações. Nos empreendimentos que possuem grandes áreas verdes, como o CEMHS, administrado por nós há mais de 20 anos, também devem ser verificadas as bombas de recalque e os sistemas de escoamento de águas pluviais. A poda preventiva de árvores próximas aos edifícios e a inspeção de elementos estruturais sujeitos à ação dos ventos completam o conjunto de medidas voltadas à redução de riscos”, alerta Roxo.
Oscilações e interrupções no fornecimento de energia também costumam ser mais frequentes durante eventos climáticos severos. Por esse motivo, Roxo recomenda a revisão dos geradores de emergência, dos sistemas UPS, conhecidos como no-breaks, dos bancos de baterias e dos dispositivos de transferência automática de energia. Os contratos de manutenção dos equipamentos considerados críticos também devem ser avaliados, garantindo atendimento rápido em situações emergenciais.
A gestão da água merece atenção especial. Dependendo da região do país, o El Niño pode provocar tanto excesso de chuvas quanto períodos prolongados de escassez. Em ambos os cenários, o FM pode atuar preventivamente por meio do monitoramento do consumo, da inspeção dos reservatórios, da revisão dos sistemas de reaproveitamento de água da chuva e da realização de testes nas bombas hidráulicas.
Além da infraestrutura, os eventos climáticos extremos exigem a atualização dos protocolos de emergência, especialmente em edifícios com grande número de colaboradores e elevada circulação de pessoas. “Planos de evacuação, sistemas de comunicação, procedimentos para alagamentos e rotas alternativas de acesso devem ser revisados periodicamente. O treinamento das brigadas e das equipes operacionais também é indispensável para que todos saibam como agir diante de diferentes ocorrências”, pontua Roxo.
Mônica Laplace, responsável pelas áreas de comunicação e gestão de riscos da RV Gestão, complementa que, em edifícios com grande circulação de pessoas, a velocidade e a clareza da comunicação podem ser decisivas para evitar acidentes.
“Informações sobre interdições, mudanças de acesso, riscos estruturais ou interrupções de serviços precisam chegar rapidamente aos ocupantes, prestadores de serviços, visitantes e demais públicos envolvidos”, afirma Laplace. Ela observa, ainda, que muitas empresas não possuem equipes preparadas para orientar, de maneira ágil, eficiente e assertiva, todo o público interno das edificações.
Laplace reforça também que, para emergências, é importante estabelecer previamente um diálogo com locatários e proprietários sobre a adoção de planos de trabalho remoto, por exemplo. A medida pode evitar que os colaboradores precisem se deslocar em meio ao caos urbano provocado por chuvas intensas, alagamentos ou outras ocorrências climáticas severas.
Mais do que responder às ocorrências, o papel do FM é identificar e reduzir vulnerabilidades antes que elas se transformem em crises. Para Roxo, a integração entre tecnologia, planejamento e capacitação das equipes amplia a capacidade de resposta das organizações.
“A combinação entre manutenção preventiva, gestão de riscos, monitoramento por sensores, sistemas de automação predial e análise de dados permite antecipar problemas e aumentar a resiliência das operações. Por isso, treinar a equipe é fundamental. Não podemos esperar que o problema aconteça para somente depois pensar no que fazer”, conclui.