Retrofit pós-incêndio: quais soluções técnicas são adotadas na reconstrução do Museu Nacional?

Obras de requalificação avançam no edifício com foco em proteção, eficiência e recuperação estrutural

Por Redação

Retrofit pós-incêndio: quais soluções técnicas são adotadas na reconstrução do Museu Nacional?

Foto: Divulgação


O incêndio que atingiu o Museu Nacional em 2 de setembro de 2018 comprometeu aproximadamente 90% do acervo, composto por cerca de 20 milhões de itens. A edificação, localizada na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, permaneceu fechada por seis anos e iniciou sua reabertura parcial em julho de 2025 com áreas restritas à visitação pública.

As obras de reconstrução integram diferentes estratégias de retrofit, com a introdução de sistemas estruturais, soluções para iluminação e novas coberturas, além de adaptações para futuras instalações elétricas e de climatização. Um dos elementos recentes é a claraboia instalada sobre o pátio da escadaria, feita com vidros de proteção solar da linha Neutral Plus 50, fabricados pela Guardian Glass e processados pela Glassec. O material permite a entrada de luz natural e controla a passagem de calor e radiação ultravioleta, contribuindo para a preservação do espaço e para o conforto térmico sem necessidade imediata de climatização artificial.

De acordo com o portal oficial do projeto Museu Nacional Vive, a claraboia cobre a escadaria histórica do início do século XX, até então exposta diretamente às condições climáticas externas. O objetivo da instalação é preservar elementos estruturais e permitir uma iluminação natural compatível com o ambiente original do prédio.

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Foto: Divulgação


Segundo relatório da UFRJ, o custo total estimado para a reconstrução é de R$ 516,8 milhões, com R$ 347,2 milhões já captados até julho de 2025. Os recursos são provenientes de fontes públicas e privadas, incluindo BNDES, Unesco e empresas patrocinadoras.

A reabertura parcial incluiu a exposição temporária “Entre Gigantes”, com acesso controlado a três ambientes restaurados do prédio principal. Um dos destaques da mostra é o esqueleto de um cachalote com 15,7 metros de comprimento, suspenso sob a nova claraboia.


Soluções técnicas aplicadas na reconstrução

As intervenções no Museu Nacional envolvem uma combinação de tecnologias contemporâneas, estratégias de preservação e reforço estrutural. Um dos pilares do projeto é o uso de modelagem BIM (Building Information Modeling), ferramenta digital que permite a integração de disciplinas como arquitetura, estruturas, instalações prediais, prevenção de incêndio, climatização e acessibilidade. A adoção da plataforma em 3D foi pensada para evitar conflitos entre projetos e otimizar o uso de recursos.

Entre as soluções técnicas aplicadas, destacam-se a instalação de sprinklers e chuveiros automáticos, bem como sistemas de proteção contra descargas atmosféricas. A cobertura do edifício foi refeita com reforços metálicos e tesouras estruturais, e os vãos superiores receberam contraventamentos para garantir estabilidade.

Leia também: Retrofit gera mais de R$3 milhões de economia para operação de shopping


Outras medidas incluem a gestão hídrica, com captação de águas pluviais, e o restauro da fachada principal, que resgatou as cores originais da edificação no período imperial, após levantamento histórico e análise técnica. Também foram executadas ações arqueológicas, com o resgate de pisos, porcelanas e estruturas construtivas que serão incorporadas à narrativa museológica.

Além do prédio principal, o anexo Alípio de Miranda Ribeiro está passando por requalificação com foco em acessibilidade, museografia e sinalização, mantendo os critérios de compatibilidade com o edifício histórico.

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Retrofit e patrimônio: experiências recentes no Brasil

No Brasil, diferentes instituições têm adotado retrofit como parte da recuperação de edificações afetadas por sinistros ou em processo de requalificação. Um estudo desenvolvido na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em 2019, pela pesquisadora Marina Alves da Silva Ruiz, analisou o papel do retrofit em edifícios culturais como estratégia de sustentabilidade e preservação urbana.

A obra da Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, incluiu a reabilitação de esquadrias, sistemas de climatização e rede elétrica, sem descaracterizar a arquitetura do edifício tombado pelo CONPRESP. A intervenção também preservou os usos culturais, com a reestruturação de salas de leitura, auditórios e espaços expositivos. A autora afirma que esses elementos reforçam a permanência do edifício na malha urbana, evitando deslocamentos institucionais ou descarte de estruturas com potencial de reuso.

No caso da Biblioteca Mário de Andrade, ao contrário do Museu Nacional, o retrofit foi preventivo e funcional, e não reativo a um desastre. O estudo destaca que, por se tratar de um edifício tombado, as intervenções respeitaram normas de preservação estabelecidas por conselhos de patrimônio, mantendo fachadas, proporções e elementos originais. A climatização, por exemplo, foi projetada de forma setorizada, adaptando-se às limitações físicas do edifício. A iluminação natural foi reforçada por soluções em vidro e estruturas metálicas discretas, equilibrando eficiência e integridade visual.


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