Gêmeos digitais deixam o discurso e entram na norma

A publicação da ABNT NBR ISO/IEC 3173 estabelece conceitos e vocabulário comuns para gêmeos digitais no Brasil, aproximando a tecnologia da prática operacional e exigindo maior integração entre facilities, engenharia, TI e áreas de dados.

Por Léa Lobo

Gêmeos digitais deixam o discurso e entram na norma

Foto: Divulgação


O Brasil começa a estruturar oficialmente o uso de gêmeos digitais com a publicação da ABNT NBR ISO/IEC 3173, marco que organiza conceitos e estabelece um vocabulário comum para uma tecnologia considerada estratégica na transformação digital. O tema foi debatido em evento online promovido pela Associação Brasileira de Internet das Coisas, a ABINC, responsável por liderar a tradução e adaptação de padrões internacionais para o país.

A iniciativa surge em um momento de amadurecimento do mercado. Segundo o presidente da ABINC, Rogério Moreira, o potencial econômico global da tecnologia pode alcançar 110 bilhões de dólares até 2028. Ele destaca que o avanço do tema no Brasil está diretamente relacionado ao ecossistema de Internet das Coisas, base indispensável para que um gêmeo digital exista de forma efetiva.

A norma recém-publicada define gêmeo digital como a representação digital de um ativo físico conectada por dados e sincronização contínua entre o mundo real e o virtual. A definição parece simples, mas resolve um problema relevante. De acordo com Bruno Medina, especialista e líder do grupo técnico da ABINC, diferentes organizações adotavam interpretações divergentes sobre o conceito, o que gerava ruído técnico e insegurança em projetos.

Medina reforça que o documento tem caráter conceitual e não prescritivo. A norma funciona como uma bússola, não como um manual de implementação. Ela estabelece fundamentos e terminologia, mas não determina arquitetura ou tecnologias específicas. O objetivo é criar uma base comum que diferencie claramente um gêmeo digital de um modelo 3D estático, de uma simulação isolada ou de um dashboard desconectado da realidade operacional.

A relação com IoT é central. Sensores instalados nos ativos físicos capturam dados em tempo real e permitem que a representação digital acompanhe o comportamento do ativo ao longo do tempo. Sem essa camada de conectividade e sincronização contínua, não há gêmeo digital, apenas visualização.

Hoje, os setores mais maduros na aplicação da tecnologia são manufatura, infraestrutura, energia e construção civil. As aplicações incluem otimização de linhas de produção, gestão de ativos industriais, eficiência energética de edifícios, monitoramento de infraestrutura crítica e planejamento urbano. Áreas como saúde, mobilidade e cidades inteligentes também avançam, ainda que enfrentem desafios ligados à interoperabilidade e infraestrutura de sensores.

Para gestores prediais e de utilidades, o avanço da padronização não é um tema periférico. Ele toca o coração da operação. Edifícios corporativos, hospitais, indústrias e data centers concentram ativos de alto valor e sistemas complexos de climatização, energia, hidráulica, elevadores e segurança. A possibilidade de conectar esses ativos a representações digitais dinâmicas abre espaço para manutenção preditiva, simulação de cenários, otimização de consumo energético e aumento da vida útil dos equipamentos.

Em um ambiente de pressão constante por eficiência, redução de Opex, justificativa de Capex e metas de ESG, operar apenas com relatórios estáticos passa a ser insuficiente. O gêmeo digital permite testar decisões no ambiente virtual antes de aplicá-las no ativo real, reduzindo riscos e aumentando previsibilidade.

A publicação da norma também eleva o nível de responsabilidade técnica dos gestores. A transformação digital deixa de ser discurso corporativo e passa a exigir integração entre facilities, engenharia, TI e áreas de dados. O profissional de gestão predial que não compreender conceitos como interoperabilidade, qualidade de dados e sincronização contínua pode perder protagonismo nas decisões estratégicas sobre infraestrutura.

A ABINC informa que outras normas estão em processo de tradução e adaptação, incluindo diretrizes para documentação de casos de uso e análise de aplicações práticas. A expectativa é consolidar uma base regulatória que fortaleça a competitividade brasileira em IoT, inteligência artificial e digitalização industrial.

Para o setor de Facility, Property e Utilities Management, o movimento é claro. A padronização reduz ambiguidades, aumenta segurança técnica e cria um ambiente mais favorável à inovação. Ignorar essa evolução significa permanecer na lógica da manutenção corretiva enquanto o mercado caminha para decisões baseadas em simulação e inteligência de dados.

A pergunta que se impõe aos gestores prediais não é se os gêmeos digitais farão parte da operação. É quando começarão a estruturar seus ativos, dados e sistemas para que essa integração seja possível. Porque, com a norma publicada, o discurso ganhou base técnica. E a gestão de ativos físicos acaba de entrar definitivamente na era da sincronização digital.


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