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O preço da atenção: o que está em jogo quando o tempo vira moeda

Como a sociedade das urgências transformou sua distração em lucro e o foco em poder

Por Mauri Oliveira ([email protected])

O preço da atenção: o que está em jogo quando o tempo vira moeda

Imagem: Canva.com/MarkSwallow


Era manhã. Mas não qualquer manhã. O céu pairava num azul quase sussurro. Na cozinha, o cheiro do café fresco se misturava com as notificações vibrando sobre a bancada. O som das mensagens se chocava com o leve timbre da colher na xícara. Um instante. E, ainda assim, vários mundos: um feixe de luz atravessava a janela e iluminava o rosto, o toque frio da tela, o eco da mente tentando começar. O telefone vibrava antes mesmo de qualquer despertar. A língua sentia o abraço intenso do café, os olhos piscavam sem foco, e o corpo já respondia e-mails com a alma em modo avião. Na dança das urgências, ela mal percebia: havia acordado para um dia que já a havia consumido. Era cedo, mas já era tarde demais. O dia ainda nem começara e sua atenção já não era mais sua. 

Ali, parada, entre o gole e o deslizar da tela, entre o desejo de silêncio e o vício por estímulos, alguém tentava simplesmente...estar. O tempo escorria como vapor da caneca. Assim como na obra de arte “A Persistência da Memória” (1931), do pintor espanhol Salvador Dalí, o tempo na tela do celular se derrete, distorcendo a percepção e colocando em xeque a continuidade da memória e da atenção. E naquela sala saturada de estímulos e distração, uma pergunta começou a sussurrar: quanto vale a atenção?

A sociedade está sob o regime da pressa. Percebe-se uma cronodependência em uma lógica que idolatra a produtividade, porém subestima o processo. O tempo, antes uma dádiva, agora se transformou completamente em mercadoria. A espera virou consequência negativa. A atenção, o ouro do século XXI. O economista americano Herbert Simon já advertia em 1971: “Uma riqueza de informação cria uma pobreza de atenção.” O excesso suga as pessoas. A abundância distrai. A ânsia de ter e o tédio de possuir, descritos pelo filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860), é tão atual. E, nessa nova ordem sensorial, os indivíduos são reféns de estímulos que competem por cada fenda de foco. 

Daniel Goleman, na obra Foco (2013), desnuda esse esforço invisível. Ele diz que o cérebro, entre distrações e demandas, tenta resistir. Quando a mente divaga, o cérebro ativa os circuitos da imaginação, da memória, das possibilidades. No instante em que isso se torna consciente, outra rede se acende: a do foco e do alerta. E ao tentar recuperar o fio da atenção, um fio fino como brisa, os lóbulos pré-frontais assumem, tentando reger o caos com disciplina cognitiva. Mas como manter o foco quando tudo é feito para dispersá-lo?

Vive-se no paradoxo do excesso: “hiperconectados”, porém incomunicáveis. Rodeados por dispositivos, mas desconectados da escuta. A modernidade técnica acelerou trocas, e reconfigurou o diálogo. A desordem performática das redes gera novas sociabilidades: mais exposição, menos alteridade. O excesso de si é o esvaziamento do outro. Simula-se escuta, simula-se empatia. 

O professor americano Cal Newport, na obra Trabalho Focado (2018), alerta: a capacidade de mergulho profundo será o diferencial do futuro. Em tempos de distração institucionalizada, focar é um ato político. A atenção virou campo de disputa. No afã de fazer tudo, a velocidade rouba o sensível. O sublime virou banal. O básico: dormir bem, escutar de verdade, demorar-se numa conversa é hoje da ordem do luxo. Se por um lado essa análise tem algo de instrumental, por outro revela o drama de uma subjetividade que tenta resistir com pequenos gestos de foco.

O cerne da atenção começa no toque com a realidade, na escuta genuína e no olhar firme. Essa é criatividade em ato. A modernidade hipnotiza com a equação: rapidez = resultado. Em última análise, o que é inovação sem consistência? A pressa é inimiga da ética. A velocidade, quando dogmatizada, empobrece. Quando o básico é sublime, o tempo deixa de ser inimigo e se torna território fértil para o novo. Não se trata de demonizar a era digital, mas de interrogar seus usos. Trocar a culpa pelo convite: que futuro a sociedade deseja construir com a moeda da atenção? De fato, é necessário responsabilizar-se pelos desafios contemporâneos. 

“Tá tudo mudando”, cantam Zé Ramalho e Mauricio Baia. E sim, está. Mas mudar não é precisamente evoluir. A mutação da era digital precisa ser acompanhada de um amadurecimento da consciência. Caso contrário, corre-se o risco de medicalizar a vida, terceirizar a escuta e exaurir a alma. Se o mundo muda, nossa forma de estar no tempo também precisa mudar. A atenção é, antes de tudo, um gesto de cuidado com a vida. A atenção é escolha política. Escolher focar talvez não mude o mundo, mas pode preservar um fio de lucidez. E o futuro, afinal, não se escreve com promessas, mas com presença.

A xícara ainda estava ali. Fria. O tempo, escorregadio como o ruído das notificações. A manhã seguiu. Mas algo tinha mudado. Um feixe de consciência aceso entre estímulos e silêncios. Talvez o mais precioso dos recursos esteja justamente aí: no poder de decidir para onde olhar, isto é, no foco. A xícara de café está vazia. O telefone segue vibrando, inabalável. Um pequeno e tênue movimento surgiu na respiração que desacelera, no pensamento que se aquieta, na coragem de desligar por um instante.

Se chegou até aqui, talvez o tempo já tenha começado a voltar a ser seu.


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