Data centers avançam no Brasil e pressionam rede elétrica com nova demanda

Especialista da Stocche Forbes aponta transmissão como maior gargalo e vê nos grandes consumidores uma oportunidade para destravar projetos de energia renovável

Por Natalia Gonçalves

Data centers avançam no Brasil e pressionam rede elétrica com nova demanda

Foto: Canva.com/baranozdemir


A expansão dos data centers no Brasil coloca o setor elétrico diante de um paradoxo: há sobra de geração, mas falta capacidade para levar energia até onde ela é consumida. O país possui matriz renovável robusta e projetos autorizados que ainda não saíram do papel, mas a distância entre polos de geração e centros urbanos expõe a fragilidade da malha de transmissão. “O grande obstáculo é garantir infraestrutura que conecte áreas de geração renovável, geralmente distantes, aos locais de implantação dos data centers”, afirma Frederico Accon, sócio da Stocche Forbes e especialista em energia.

Esse descompasso entre prazos de leilões de transmissão e horizontes de investimento das empresas de tecnologia leva investidores a buscar alternativas como autoprodução, armazenamento em baterias e até a instalação próxima a polos de geração. Soluções que, além de reduzir riscos, aceleram a viabilidade dos empreendimentos.

Data centers avançam no Brasil e pressionam rede elétrica com nova demanda

Demanda crescente e novas oportunidades
Apesar do desafio, os novos centros de dados podem funcionar como vetor de crescimento para o setor elétrico. A demanda ultraintensiva ajuda a reduzir o desperdício de geração renovável, conhecido como curtailment, e cria mercado para projetos que estavam travados por falta de contratos de longo prazo. “Essas cargas ajudam a mitigar riscos dos geradores e podem estimular um novo ciclo de investimentos em transmissão e geração limpa”, observa Accon.

Outro ponto sensível é a climatização, responsável por cerca de 40% do consumo energético dessas instalações. Tecnologias como resfriamento líquido, refrigeração por imersão e inteligência artificial aplicada à gestão térmica já começam a mudar essa equação. Além disso, a escolha do local pesa: regiões mais frias reduzem a necessidade de resfriamento ativo e melhoram a eficiência operacional.

Mesmo com um sistema elétrico reconhecido pela alta confiabilidade, os data centers exigem redundâncias que elevam os custos. “O desafio é equilibrar o nível de confiabilidade desejado com o preço dessa segurança adicional”, explica o especialista. Modelos híbridos, que combinam baterias e geração local, surgem como forma de garantir continuidade sem comprometer a competitividade.


Sustentabilidade como diferencial competitivo
As críticas ao alto consumo energético dessas estruturas, segundo Accon, precisam ser vistas sob a ótica da transformação digital. “O consumo acompanha um movimento irreversível de digitalização e inteligência artificial, e o Brasil tem vantagens claras ao oferecer uma matriz majoritariamente renovável”, ressalta. O país desponta como destino competitivo para investidores que buscam expansão com menor pegada de carbono, combinando autoprodução limpa, contratos de longo prazo e estratégias ESG.

No campo jurídico, a Stocche Forbes tem assessorado desde a regularização fundiária e licenciamento ambiental até a modelagem de autoprodução e negociação de contratos de energia. A meta, segundo Accon, é oferecer segurança e flexibilidade para que clientes explorem esse ciclo de expansão. “Nosso trabalho é estruturar soluções sob medida para que esses projetos avancem com eficiência econômica e segurança jurídica.”


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