Por Redação

| A transformação da força de trabalho por IA lidera as prioridades estratégicas na América Latina, mas a incerteza sobre seus efeitos no espaço já aparece como risco para 49% dos líderes pesquisados pela JLL.Foto: https://depositphotos.com/br/photos/834522264 |
A inteligência artificial introduziu uma variável difícil de acomodar no planejamento imobiliário: a velocidade. Uma organização pode decidir em 2026 renovar uma locação, executar um retrofit ou contratar novos metros quadrados que permanecerão em seu portfólio por anos, enquanto as funções das pessoas que ocuparão esse espaço podem mudar muito antes. O Future of Work 2026 da JLL para a América Latina mostra que a transformação da força de trabalho impulsionada por IA aparece como a principal prioridade estratégica entre os líderes da região e, ao mesmo tempo, como o cenário em que as organizações apresentam menor nível de preparação.
Essa lacuna já chegou ao portfólio físico. Segundo o estudo, 49% dos entrevistados latino-americanos apontam a incerteza sobre o impacto da IA no espaço de trabalho como um risco para os próximos três a cinco anos, acima dos 40% registrados globalmente. A dificuldade, portanto, não parece estar apenas em perceber que a tecnologia mudará o trabalho, mas em entender como essa mudança deve se traduzir em decisões sobre capacidade, layout, localização e investimento.
A pesquisa ouviu mais de 2.200 tomadores de decisão em 21 mercados no primeiro trimestre de 2026. O recorte latino-americano reúne 150 participantes de Argentina, Brasil, Colômbia e México, dos quais 33% são brasileiros. Quando questionados sobre prioridades estratégicas, 47% dos líderes da região colocaram a transformação da força de trabalho provocada pela IA no topo da agenda. O contraste está no grau de preparação: entre os oito cenários avaliados pela JLL, esse é justamente aquele em que as organizações latino-americanas apresentam menor avanço.
Há outra diferença reveladora. Apenas 30% dos entrevistados da América Latina apontam a disrupção tecnológica ou a própria IA como risco para o portfólio, ante 40% globalmente. Ao mesmo tempo, a incerteza sobre o impacto da IA no espaço aparece com frequência bem maior. Os dados sugerem que a dificuldade não está somente na tecnologia, mas em antecipar seus efeitos sobre o ambiente de trabalho. Para decisões imobiliárias, isso abre uma questão concreta: o que acontecerá com as atividades, equipes e padrões de presença que hoje sustentam as premissas de ocupação?
O headcount deixa de contar toda a história
Uma resposta aparentemente simples seria associar mais automação a menos empregos e, consequentemente, menos escritórios. Os dados da JLL não apontam para uma relação tão linear. Ao comparar tendências esperadas para os próximos três a cinco anos, 58% dos respondentes latino-americanos se posicionam no sentido de expansão da força de trabalho, enquanto 42% aparecem no sentido oposto. Outros 59% indicam uma tendência a papéis humanos redesenhados pela IA, ante 41% associados a postos reduzidos pela automação.
Outro resultado reforça a complexidade desse cenário. Na comparação apresentada pela JLL entre duas direções possíveis para a força de trabalho, 63% dos respondentes latino-americanos se posicionam no sentido de novos e melhores talentos, com aumento do uso de IA e funções de maior valor, enquanto 37% aparecem no polo de requalificação da força de trabalho. O relatório também registra maior tendência a desempenho baseado na qualidade do resultado do que em horas trabalhadas.
Esses movimentos tornam mais difícil tratar o número total de funcionários como explicação suficiente para a demanda imobiliária. O mesmo headcount pode assumir outra composição de funções, atividades e padrões de uso do escritório. Se parte dos cargos for redesenhada, a questão deixa de ser apenas quantas pessoas a organização terá e passa a incluir que trabalho essas pessoas realizarão, com que frequência estarão juntas e que tipos de ambiente serão utilizados.
Há ainda um problema de timing. Somente 42% das organizações latino-americanas pesquisadas afirmam estar otimizando ou utilizando soluções de IA. Outros 28% estão buscando fornecedores ou conduzindo pilotos, enquanto 30% ainda observam ou aguardam. Isso significa que 58% estão em etapas anteriores à adoção escalada ou otimizada, justamente enquanto decisões sobre contratos, projetos e investimentos imobiliários continuam precisando ser tomadas.
A diferença entre intenção e execução aparece também na ambição declarada. Para os próximos três a cinco anos, 24% das organizações latino-americanas esperam uma reinvenção total provocada pela IA e 44% projetam transformação moderada, enquanto 32% antecipam impacto mínimo. O relatório, portanto, não descreve um único futuro para o trabalho na região. Ele registra organizações em diferentes estágios de adoção e com expectativas distintas sobre a intensidade da transformação.
Planejar uma faixa de futuros possíveis
É nesse intervalo entre expectativas e execução que o planejamento imobiliário passa a conviver com mais hipóteses. Uma única projeção de headcount pode não capturar todas as possibilidades indicadas pela própria pesquisa. Crescimento da força de trabalho, redesenho de funções e diferentes níveis de adoção da IA podem produzir demandas distintas sobre capacidade e configuração dos ambientes, mesmo dentro da mesma organização.
O relatório não apresenta uma metodologia de planejamento por cenários nem define uma fórmula para dimensionar escritórios diante dessa incerteza. Seus resultados, porém, permitem identificar variáveis que podem alterar as premissas imobiliárias. Além da evolução do quadro de funcionários, aparecem o redesenho das funções, o acesso a talentos especializados, as políticas de presença, a infraestrutura tecnológica e o estágio de adoção da IA.
Na conclusão do estudo, a própria JLL propõe diagnosticar o impacto da IA sobre as funções antes de definir decisões de portfólio e estabelecer um indicador específico para acompanhar o avanço dessa transformação. A pesquisa também relaciona decisões de localização ao acesso a talentos especializados e em IA e propõe incorporar experiência do empregado e posicionamento estratégico aos critérios de avaliação dos imóveis corporativos.
Para uma decisão de renovação, consolidação, expansão ou retrofit, essas variáveis permitem formular mais de uma hipótese sobre o uso futuro do ativo. Uma organização pode testar, por exemplo, como o imóvel responderia a diferentes volumes de pessoas e padrões de presença. Quanto menos reversível for a decisão, seja pela área contratada, pelo CAPEX comprometido ou pela configuração física escolhida, maior tende a ser sua exposição a uma premissa que ainda pode mudar. Essa é uma implicação de planejamento derivada do cenário descrito pela pesquisa, e não uma conclusão medida diretamente pela JLL.
A adaptabilidade também aparece na discussão sobre infraestrutura. Entre as ações apresentadas ao final do relatório está a priorização de ativos com infraestrutura tecnológica habilitada e potencial de automação, em vez de expansão baseada apenas em metros quadrados. A JLL também aponta para ajustes nos processos de investimento para que gastos com automação e infraestrutura tecnológica ganhem espaço em relação aos custos tradicionais de ocupação.
A pesquisa da JLL não oferece uma resposta definitiva sobre quanto espaço as empresas precisarão nem permite concluir que a IA reduzirá ou ampliará a demanda por escritórios. O que ela registra é uma assimetria: a transformação da força de trabalho já ocupa o topo da agenda, enquanto a preparação para traduzir essa mudança para o espaço permanece atrás de outros temas. Para um portfólio construído com decisões de longo prazo, essa distância entre transformação e preparação talvez seja o dado mais relevante do estudo: o futuro ainda não está definido, mas parte dos compromissos imobiliários que conviverão com ele já está sendo assumida.
Como construímos este material
Essa matéria foi elaborada principalmente a partir do relatório regional Future of Work 2026 da JLL Research, publicado em julho de 2026. O levantamento global ouviu mais de 2.200 tomadores de decisão em 21 mercados, com 150 participantes no recorte latino-americano. Caso identifique alguma inconsistência ou queira sugerir novas pautas, entre em contato pelo e-mail [email protected].