Por Edilaine Siena

| Edilaine Siena, Especialista em Gestão e Inovação no setor de Limpeza Profissional, Vice-presidente executiva da Abralimp e Diretora especialista em Infra Serviços no Grupo GPS |
Durante muitos anos, a contratação de serviços de limpeza foi estruturada sobre três critérios principais: preço, quantidade de profissionais e frequência das atividades. Esses elementos continuam relevantes, mas já não são suficientes para garantir qualidade, produtividade e ambientes verdadeiramente saudáveis.
Depois de mais de 30 anos atuando no setor, aprendi que o primeiro passo para construir uma boa operação não é perguntar quantas pessoas serão necessárias. Essa deveria ser uma das últimas perguntas. Antes, é preciso compreender o ambiente, a ocupação, os fluxos, os horários de maior demanda, os tipos de superfície, a criticidade de cada área, os riscos envolvidos e, principalmente, o resultado que o cliente espera alcançar.
O menor preço inicial pode se transformar no maior custo ao longo do contrato quando o projeto nasce subdimensionado, sem método, estrutura ou condições de sustentar a qualidade prometida. Competitividade não significa operar com menos recursos, mas utilizar os recursos certos, nos locais certos e nos momentos em que são realmente necessários.
Da aparência à evidência
Outro ponto que precisa evoluir é a forma de avaliar a limpeza. Um ambiente pode parecer limpo e, ainda assim, apresentar falhas de processo, contaminação cruzada ou execução inadequada. A inspeção visual permanece importante, mas deve ser complementada por auditorias técnicas, registros digitais, rastreabilidade das atividades e, em áreas críticas, métodos específicos de verificação de higiene.
Um contrato moderno deve acompanhar indicadores como conformidade das atividades, produtividade por metro quadrado, tempo de resposta, reincidência de ocorrências, consumo de produtos, utilização de equipamentos, estabilidade da equipe, absenteísmo, rotatividade, percepção dos ocupantes e cumprimento dos níveis de serviço. O objetivo é transformar qualidade em evidência. Contratos estratégicos não podem ser administrados apenas por percepção.
Também precisamos substituir a lógica da rotina fixa pela lógica da necessidade. Um sanitário utilizado por 500 pessoas não demanda o mesmo tratamento de outro usado por 50, ainda que ambos tenham metragem semelhante. Os escopos devem combinar uma programação básica com capacidade de resposta dinâmica, orientada pela ocupação, pelo fluxo e pelos dados coletados ao longo do dia.
Tecnologia precisa provar valor
Robôs, sensores, inteligência artificial e equipamentos autônomos começam a ocupar espaço nas operações. São avanços importantes, desde que resolvam problemas reais. Antes de implantar qualquer tecnologia, é necessário estabelecer uma linha de base, observando quanto tempo a atividade consome, qual é o custo, qual área é processada, que padrão de qualidade é alcançado e quais limitações e riscos existem.
Depois da implantação, os mesmos pontos devem ser medidos novamente. A solução precisa demonstrar ganho de produtividade, redução de esforço físico, maior segurança, melhor qualidade, menor consumo ou ampliação da cobertura. Também deve ser compatível com o ambiente e estar integrada aos processos, às pessoas e à gestão. Um robô sem rota adequada, operador preparado, suporte técnico e indicadores é apenas um equipamento caro circulando pela operação.
Limpeza para a saúde e para a sustentabilidade
Limpeza para a saúde significa reconhecer que o serviço interfere diretamente na segurança, no conforto e na experiência das pessoas. Na prática, isso muda a escolha dos produtos, os procedimentos, o tempo de ação dos químicos, a separação dos materiais, o controle da contaminação cruzada, o treinamento e a verificação da execução. Também amplia o olhar para a qualidade do ar interno, o controle de partículas, a exposição química, a gestão de resíduos e as condições gerais do ambiente.
A sustentabilidade, por sua vez, não pode ser resumida à compra de um produto com apelo ambiental. Ela deve percorrer todo o ciclo da operação, desde soluções concentradas e biodegradáveis, sistemas seguros de diluição, redução de embalagens, controle do consumo de água e energia, equipamentos mais eficientes, logística reversa, reciclagem têxtil e digitalização dos processos administrativos.
A dimensão social é igualmente indispensável. A limpeza profissional emprega milhares de pessoas e representa, para muitos trabalhadores, uma porta de entrada no mercado. Por isso, o contratante deve avaliar práticas de inclusão, diversidade, saúde e segurança, capacitação, desenvolvimento de lideranças, combate ao assédio e oportunidades de crescimento. Em um setor tão intensivo em pessoas, não existe sustentabilidade verdadeira sem trabalho digno, desenvolvimento e oportunidade.
Comprar resultado, não apenas horas
Talvez um dos maiores erros do nosso mercado seja comprar horas de trabalho em vez de comprar resultado. Quando todo ganho de produtividade se converte automaticamente em redução de pessoas e preço, criamos um ambiente que desestimula a inovação. O contrato precisa estabelecer uma linha de base clara, metas de qualidade, resultados esperados e mecanismos de compartilhamento dos ganhos. Parte do benefício pode gerar economia; outra parte deve sustentar treinamento, tecnologia, melhoria contínua e reconhecimento profissional.
Produtividade também não é sinônimo de eliminação de postos de trabalho. Em muitas operações, a tecnologia permite ampliar a área atendida, aumentar a frequência onde ela é necessária, reduzir riscos e direcionar as pessoas para atividades que exigem julgamento, cuidado e interação. A inovação somente se sustenta quando gera valor para o cliente, a prestadora, a operação e os profissionais.
Uma concorrência bem estruturada precisa detalhar áreas, atividades, responsabilidades, exclusões, frequências e serviços extraordinários. Deve questionar como o fornecedor chegou ao dimensionamento, quais riscos identificou, como reagirá às mudanças de ocupação, quais tecnologias já comprovou, como medirá os impactos ambientais e sociais e qual será o plano dos primeiros 30, 60 e 90 dias. E há uma pergunta decisiva. Se as premissas estiverem incompletas ou incorretas, a prestadora terá coragem técnica para alertar o cliente?
Um bom parceiro não é aquele que apenas concorda com o edital ou escopo fornecido. É aquele que compreende a operação, identifica lacunas, antecipa riscos e contribui para decisões melhores.
Uma estratégia de negócio
Tecnologia, processos e indicadores são fundamentais, mas nenhum contrato se sustenta sem pessoas preparadas, valorizadas e bem lideradas. A limpeza é um serviço silencioso, porém fala alto quando não é realizada adequadamente. Quem está na linha de frente conhece a rotina, percebe mudanças e identifica riscos; deixar de ouvir esses profissionais significa perder uma das fontes mais valiosas de informação da operação.
O futuro da limpeza profissional será construído pelo equilíbrio entre pessoas, processos, tecnologia, dados e sustentabilidade, apoiados por uma governança capaz de transformar informação em decisão e promessa em resultado. Não existe uma solução única, pois cada ambiente exige diagnóstico, método e capacidade de adaptação.
Talvez a pergunta central já não seja quanto custa limpar um espaço, mas qual é o valor de mantê-lo seguro, saudável, produtivo e preparado para as pessoas. Quando o mercado compreender essa diferença, deixaremos de comprar limpeza como mão de obra e passaremos a contratá-la como estratégia de negócio.