Por Redação
SÉRIE ESPECIAL • EDIÇÃO 01 • 2026 InfraFM Conexões: soluções setoriais que impactam práticas globais Este conteúdo inaugura uma série especial do Portal InfraFM, que mostra como soluções desenvolvidas em diferentes segmentos podem inspirar toda a comunidade de Facilities. A iniciativa dialoga com o tema do Congresso InfraFM 2027 – "Ideias que nascem em um setor e inspiram todos" – e acompanha práticas que, embora surjam em contextos operacionais específicos, podem ajudar a repensar desafios comuns a diferentes segmentos. |
Quando os indicadores de um contrato de limpeza ficam abaixo da meta, o aumento do efetivo costuma aparecer entre as primeiras alternativas colocadas à mesa. Esse raciocínio aparece em hospitais, escritórios corporativos, shopping centers, bancos, universidades e outros ambientes em que o desempenho da limpeza é acompanhado por SLA, auditorias ou percepção dos usuários. A conta parece simples: mais profissionais significariam maior capacidade de atendimento e, consequentemente, melhores resultados. Um estudo realizado com dados de dez hospitais entre 2024 e 2025, porém, indica que essa relação não é automática.
O trabalho foi desenvolvido por Edgar Britto Dias, Gerente de Saúde, Nutricionista e Black Belt, Helena Serafim, Amanda Vezula, Pedro Firme, Polyana Melo, Lívia Valadão, Analu Pereira, Pablo Dantas, Maira de Oliveira e Esther Verri. Eles analisaram headcount, leitos operacionais, área física e desempenho de SLA em dez unidades assistenciais. No ambiente hospitalar, leitos funcionam como uma variável de demanda. Em outros segmentos, o equivalente pode ser circulação de pessoas, ocupação, quantidade de postos, fluxo de clientes, horários de pico ou uso efetivo dos ambientes.
Leitos e metragem explicaram com elevada precisão o tamanho das equipes alocadas. Quando a análise passou do dimensionamento para a qualidade, entretanto, a quantidade de profissionais por leito não apresentou associação estatisticamente significativa com o SLA. A leitura pode ser transportada para outros contratos sem copiar a fórmula hospitalar: metragem e volume de uso ajudam a explicar quanta capacidade a operação exige, mas não necessariamente por que uma unidade entrega melhor resultado do que outra.
Essa distinção vale tanto para um hospital quanto para a limpeza de uma sede corporativa, uma agência bancária ou um shopping center. Uma coisa é estimar quantas pessoas são necessárias para cobrir determinada área e demanda. Outra é entender o que explica o desempenho depois que essa estrutura já está montada. É nessa segunda dimensão que entram fatores como organização das rotinas, supervisão, treinamento, distribuição dos turnos, equipamentos, insumos e características do próprio espaço.


| Edgar Britto Dias, Gerente de Saúde, Nutricionista e Black Belt, cursa Executive MBA em Data Science & Analytics para Operações na USP. Ao lado dele, Helena Serafim, Diretora de Procurement, Compras, Facilities e Operações de Serviços, possui MBA em Gestão Empresarial pela FGV. Foto: Divulgação |
O dimensionamento ainda começa pelo histórico
Contratos de limpeza costumam combinar metragem, número de usuários, fluxo de pessoas, horários de ocupação, índices de produtividade e referências de mercado. Em hospitais, entram ainda variáveis específicas, como o número de leitos. Esses parâmetros ajudam a estruturar propostas e orçamentos, mas nem sempre são validados com dados reais da operação.
O estudo observa que parte das instituições ainda recorre a critérios empíricos. O problema não está necessariamente no benchmarking, mas em tratá-lo como resposta definitiva para imóveis com ocupação, fluxos, layouts, criticidade e horários de utilização distintos.
Como contraponto, a análise traz como referência o Workload Indicators of Staffing Need, da Organização Mundial da Saúde. O método utiliza carga de trabalho e padrões de tempo para apoiar o planejamento de equipes. Embora tenha sido concebido para serviços de saúde, sua lógica expõe uma diferença aplicável a outras operações: estimar recursos a partir da demanda observada não é o mesmo que repetir o quadro historicamente contratado.
Mais pessoas não significaram melhor resultado
Nas dez unidades analisadas, leitos e metragem explicaram 97,3% da variação do headcount, mostrando que o tamanho das equipes acompanhava de perto o porte físico e assistencial dos hospitais. Fora do ambiente hospitalar, a lógica permanece, mas mudam as variáveis: leitos podem dar lugar à ocupação, ao fluxo de pessoas, aos horários de pico ou à intensidade de uso dos ambientes. Esses fatores ajudam a explicar a necessidade de capacidade, mas não necessariamente a qualidade entregue.
Entre 2024 e 2025, o efetivo médio subiu de 42 para 44,8 profissionais, enquanto o SLA avançou de 82,7% para 83,5%. Os pesquisadores não encontraram associação estatisticamente significativa entre o aumento da equipe e a evolução do indicador, nem entre a quantidade de profissionais por leito e o desempenho das unidades.
Um contrato pode estar corretamente dimensionado e, ainda assim, apresentar resultados diferentes entre unidades. A partir daí, o desempenho passa a depender de variáveis que a contagem de postos não captura, como organização das rotinas, supervisão e configuração do espaço.
CONEXÃO CIFM 27: O QUE UMA EXPERIÊNCIA HOSPITALAR PODE REVELAR PARA OUTRAS OPERAÇÕES?
À primeira vista, este estudo trata de higienização hospitalar. Na prática, ele aborda uma questão presente em bancos, indústrias, universidades, aeroportos, shopping centers e escritórios: quando um indicador piora, aumentar o efetivo é realmente a resposta mais adequada?
A análise mostra como uma discussão nascida dentro do setor de saúde pode ampliar a leitura de contratos em diferentes operações de Facilities. Essa é a proposta do Congresso InfraFM 2027: ideias ganham força quando ultrapassam as fronteiras do segmento em que surgiram.
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Da presença contratada ao resultado entregue
A distinção encontrada nos hospitais também aparece na evolução dos modelos contratuais de limpeza. Um contrato baseado em postos, jornadas e frequências descreve os recursos que o fornecedor deve disponibilizar. Um contrato orientado por resultado procura definir o nível de limpeza esperado, a forma de verificação, os tempos de resposta e o tratamento das não conformidades.
Em um processo público para contratação de serviços de Facilities, a London Fire Brigade registrou a mudança de uma especificação baseada em dias de presença para outra voltada a esclarecer, padronizar e medir a limpeza, em vez de simplesmente elevar a frequência. O caso não oferece uma fórmula universal, mas ilustra como o contrato pode deslocar a discussão de “quantas vezes a equipe esteve no local” para “qual condição foi efetivamente entregue”.
A ISO 41012, dedicada ao sourcing e ao desenvolvimento de acordos de Facilities, trata a contratação como um processo que envolve estratégia, papéis, responsabilidades e estrutura do acordo. Nessa perspectiva, headcount é um componente do modelo de entrega, não o próprio resultado contratado.
O mesmo metro quadrado pode exigir trabalhos muito diferentes
O estudo encontrou uma diferença que ajuda a explicar essa limitação. As cinco unidades com maior SLA médio apresentaram 128 m² por leito; nas cinco de desempenho inferior, foram 164 m². A área por leito variou de 81 a 347 m², com dispersão de 56,9%.
Os números não comprovam que imóveis compactos produzem limpeza melhor. Eles mostram que a mesma unidade de área pode esconder condições operacionais distintas. Percursos, pavimentos, acessos, densidade de ocupação, quantidade de sanitários, perfil das superfícies, horários de pico e frequência exigida alteram o trabalho sem necessariamente modificar a metragem contratada.
Essa leitura vale para portfólios não hospitalares. Dois edifícios de 20 mil m² podem exigir estruturas diferentes quando um opera com ocupação estável e outro recebe grande circulação de público. A metragem informa a dimensão física; chamados, fluxo de pessoas, tempos de execução, reincidências e utilização dos ambientes ajudam a revelar a demanda.
Qualidade depende do sistema de gestão
O Cleaning Industry Management Standard, da ISSA, amplia esse raciocínio ao avaliar a organização de limpeza por seus sistemas de gestão e processos de entrega, e não apenas por profissionais, produtos ou procedimentos isolados. O enquadramento inclui a capacidade de entender requisitos, controlar a prestação, formar equipes e verificar resultados.
Essa abordagem ajuda a explicar por que duas operações com headcount semelhante podem entregar resultados diferentes. A diferença pode estar menos na quantidade de pessoas e mais na forma como o serviço é organizado, monitorado e corrigido ao longo da operação.
Por isso, um SLA sustentado apenas por uma nota média pode esconder causas distintas. Auditorias por tipo de área, reincidência de não conformidades, tempo para correção, chamados por usuário, absenteísmo, rotatividade e produtividade por rotina oferecem leituras complementares. O objetivo não é multiplicar indicadores, mas distinguir falta de capacidade, falha de processo, inadequação do escopo e problema de execução.

| Entre 2024 e 2025, o número médio de profissionais aumentou 6,7%, enquanto o SLA evoluiu menos de um ponto percentual nas unidades analisadas. Foto: https://depositphotos.com/194036486 |
A revisão começa pela hipótese, não pela solução
Nos hospitais analisados, três unidades estavam acima do headcount previsto pelo modelo e duas abaixo. A diferença não comprovou excesso ou insuficiência de profissionais; indicou onde aprofundar a análise. O mesmo princípio pode orientar contratos de outros segmentos.
Antes de associar um resultado ruim à equipe, a série histórica pode mostrar se houve aumento de ocupação, mudança de uso, crescimento de chamados, novas áreas, alteração de frequência ou concentração de falhas em determinados períodos. Se o efetivo cresceu e os indicadores permaneceram estáveis, a hipótese de falta de pessoas perde força. Se a demanda aumentou sem ajuste do quadro ou do escopo, a leitura muda.
Segundo Edgar e Helena, o trabalho não oferece uma resposta única para contratos de limpeza. Sua contribuição está em demonstrar que capacidade e desempenho precisam ser medidos separadamente. A metragem ajuda a estimar o esforço; o fluxo revela quando esse esforço ocorre; os processos mostram como ele é organizado; e os indicadores verificam o que foi entregue.
À medida que essas informações entram na gestão contratual, a pergunta deixa de ser apenas quantas pessoas estão alocadas. Passa a incluir quais atividades geram demanda, onde surgem as falhas, quanto trabalho retorna como retrabalho e que mudanças realmente alteram o resultado. A análise começou em hospitais, mas a discussão pertence a qualquer operação que ainda tente explicar a qualidade apenas pelo número de pessoas presentes.
Como construímos este material
Essa matéria foi elaborada com base no estudo “Dimensionamento de equipe de higienização hospitalar a partir de leitos operacionais, área física e desempenho de SLA: estudo correlacional em dez unidades assistenciais (2024–2025)”, desenvolvido por Edgar Britto Dias, Gerente de Saúde, Nutricionista e Black Belt, Helena Serafim e os demais colaboradores citados na matéria. Também foram consultados o método WISN da Organização Mundial da Saúde, a ISO 41012, o Cleaning Industry Management Standard da ISSA e documentos públicos sobre contratação orientada por resultados. Caso identifique alguma inconsistência ou queira sugerir novas pautas, entre em contato pelo e-mail [email protected].