A geração que estudou mais ainda espera a vida melhorar?

Estudo do Insper mostra que Millennials brasileiros chegaram aos 30 anos com mais escolaridade, mas enfrentam retornos menores do diploma, mercado mais instável e mais dificuldade para sair da casa dos pais

Por Redação

A geração que estudou mais ainda espera a vida melhorar?

Foto: https://depositphotos.com/br/522855998



Aos 30 anos, os Millennials brasileiros carregam mais escolaridade do que a Geração X, mas isso não se traduziu na mesma proporção em renda, estabilidade ou autonomia. Um estudo do Núcleo de Estudos Raciais do Insper mostra que a geração que mais avançou em formação chegou à vida adulta em um mercado menos previsível e com menor retorno econômico do diploma.

O estudo comparou brasileiros da Geração X, nascidos entre 1967 e 1969, com Millennials nascidos entre 1992 e 1994, observando ambos aos 30 anos de idade. A análise usou dados da PNAD, PNAD Contínua e Pesquisa de Orçamentos Familiares para avaliar renda, escolaridade, trabalho, consumo, moradia e composição familiar.

Mais estudo não virou mais segurança
Os Millennials foram a geração que mais estudou no país. Segundo o estudo, a taxa de conclusão do ensino médio passou de 25% em 1995 para 63% em 2015, enquanto a proporção de brasileiros com ensino superior completo dobrou no período.

O problema é que o mercado não recompensou esse avanço na mesma intensidade. Os retornos da educação caíram de cerca de 17% por ano adicional de estudo em 1982 para aproximadamente 10% em 2012.

O diploma continuou importante, mas perdeu parte da força como diferencial econômico. Para muitos Millennials, estudar mais deixou de significar, automaticamente, ganhar mais, comprar antes um imóvel ou construir uma trajetória profissional previsível.

A Geração X começou pior, mas encontrou mais estabilidade depois
A comparação entre as gerações mostra dois pontos de partida muito diferentes. A Geração X entrou na vida adulta em meio à hiperinflação, desemprego elevado e perda de poder de compra. Mais tarde, foi beneficiada pela estabilização monetária do Plano Real, pela expansão do crédito e pela valorização do salário mínimo.

Os Millennials viveram o percurso inverso. Cresceram em um país mais estável e mais escolarizado, mas chegaram ao mercado de trabalho durante um ciclo de baixo crescimento, informalidade persistente e crises sucessivas.

Entre 2014 e 2022, período associado à consolidação dessa geração na vida adulta, a renda domiciliar per capita caiu cerca de 8% no Brasil. Em 2017, o desemprego juvenil superou 20%.

Filhos, casa própria e saída da casa dos pais ficaram mais distantes
O estudo também mostra que os marcos tradicionais da vida adulta mudaram de lugar. A proporção de pessoas com filhos aos 30 anos caiu em todos os grupos. Entre homens brancos, passou de 63,4% na Geração X para 32,2% entre os Millennials. Entre homens negros, caiu de 69,5% para 42%. Entre mulheres brancas, passou de 75,6% para 48,8%. Entre mulheres negras, de 81% para 62,5%.

A saída da casa dos pais também deixou de seguir o padrão observado na geração anterior. Entre a Geração X, quanto maior a renda, maior era a chance de morar fora do domicílio familiar. Entre os Millennials, o desenho se inverteu: jovens de renda mais alta passaram a permanecer por mais tempo na casa dos pais.

Segundo os autores, esse comportamento pode estar ligado ao custo habitacional elevado, ao maior investimento em qualificação e à tentativa de acumular patrimônio antes de assumir despesas próprias.

Consumo melhorou, mas autonomia não acompanhou
O estudo mostra avanço no acesso a bens duráveis, especialmente eletrodomésticos. No segundo quartil de renda, por exemplo, a posse de itens como geladeira, fogão e máquina de lavar passou de pouco mais de 30% para 75%.

Esse dado indica melhora material em várias camadas da população. Mas o avanço do consumo não resolveu a dificuldade de construir autonomia econômica. Ter mais bens em casa não significa, necessariamente, conseguir sair da casa dos pais, formar família ou acumular patrimônio.

O caso do automóvel ajuda a mostrar essa mudança. No quartil mais alto, cerca de dois terços dos domicílios já tinham carro em 1995 e esse patamar permaneceu praticamente estável em 2017 e 2018. Para a Geração X, o carro funcionava como símbolo de ascensão. Para os Millennials, o consumo passou a conviver com prioridades mais fragmentadas e restrições de renda, moradia e carreira.

A mobilidade ficou menos óbvia
O estudo não afirma que os Millennials vivem pior em todos os aspectos. Eles têm mais anos de escolaridade, mais acesso a bens duráveis e cresceram em um país mais urbano, conectado e com maior acesso à informação.

O ponto central é outro: esses avanços não produziram a mesma mobilidade esperada. A geração que mais estudou chegou à vida adulta em um ambiente de crescimento mais lento, competição mais intensa e retorno mais incerto ao esforço individual.

Para os autores, a comparação entre Geração X e Millennials revela que o Brasil mudou de patamar em inclusão, mas não conseguiu romper seus padrões de desigualdade intergeracional.

O resultado é uma geração que avançou em formação, mas ainda enfrenta dificuldade para transformar esse avanço em estabilidade, patrimônio e autonomia. Não se trata apenas de comportamento geracional. Trata-se de uma mudança concreta nas condições econômicas que organizam trabalho, moradia, família e futuro.

Como construímos este material
Esta matéria foi elaborada com base no estudo Geração X versus Millennials: quem são os grandes vencedores?, produzido por Daniel Duque, Michael França e Fillipi Nascimento, do Núcleo de Estudos Raciais do Insper, em 2025. Caso identifique alguma inconsistência ou queira sugerir novas pautas, entre em contato pelo e-mail [email protected].


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