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O corpo fala e como o avanço das doenças psicossomáticas pode mudar a agenda das empresas

Sintomas sem causa médica clara crescem e colocam a saúde emocional no centro da estratégia de gestão de pessoas e ambientes de trabalho

Por Redação

O corpo fala e como o avanço das doenças psicossomáticas pode mudar a agenda das empresas

Foto: Canva.com/Charliepix


Insônia, dores musculares, crises de ansiedade e comportamentos compulsivos se tornaram parte da rotina de milhões de pessoas. Um estudo publicado na Cambridge University, que investigou sintomas medicamente inexplicados na atenção primária, aponta que entre 15% e 30% das consultas são motivadas por queixas físicas sem explicação clínica evidente. A estimativa reforça a presença crescente das chamadas doenças psicossomáticas e a dificuldade de identificar sua origem apenas por exames médicos.

No Brasil, diferentes levantamentos mostram um cenário de forte pressão sobre a saúde mental. A Organização Mundial da Saúde aponta o país entre aqueles com maior prevalência de ansiedade no mundo, com estimativa em torno de 9,3% da população afetada. Estudos baseados em dados da própria organização indicam ainda que aproximadamente 5,8% dos brasileiros vivem com depressão, uma das taxas mais altas entre países em desenvolvimento.

Na prática, o que aparece no dia a dia são colaboradores com dores difusas, fadiga, queda de energia, problemas gastrointestinais e crises de ansiedade recorrentes. Muitas vezes, os exames não apontam alterações significativas, mas o corpo segue em alerta.

O psicólogo e pesquisador Jair Soares dos Santos, fundador do Instituto Brasileiro de Formação de Terapeutas e doutorando em Psicologia na Universidade de Flores, na Argentina, resume essa dinâmica ao lembrar que a mente e o corpo funcionam como um sistema único. Ele afirma que a dor física ou o sintoma emocional costumam ser expressões de experiências antigas não elaboradas, e que o corpo passa a falar quando a mente já não consegue sustentar a sobrecarga 

Jair Soares chama atenção para um ponto que costuma passar despercebido nas empresas. Sintomas graves podem se esconder atrás de comportamentos valorizados, como produtividade extrema, necessidade de controle e dificuldade de delegar. Por fora, a imagem é de alta performance. Por dentro, há um organismo que opera em regime permanente de emergência emocional 

Ambientes corporativos que agravam ou aliviam o sofrimento

Esse contexto reposiciona o papel dos gestores de Facilities, Workplace e operações. Layouts ruidosos, ausência de espaços de pausa, iluminação inadequada e políticas que estimulam a disponibilidade permanente tendem a intensificar quadros de ansiedade e somatização. Em contrapartida, ambientes que favorecem privacidade quando necessário, conforto acústico, áreas de descompressão e fronteiras mais claras entre tempo de trabalho e tempo pessoal funcionam como proteção silenciosa.

Para além da infraestrutura, a cultura pesa. Quando o adoecimento emocional é tratado como fraqueza, colaboradores aprendem a esconder sintomas, recorrem ao automedicamento ou adiam a busca por ajuda. Quando o discurso muda e a empresa reconhece o sofrimento como experiência legítima, abre espaço para que o corpo não precise gritar na forma de dor crônica ou crises recorrentes.

Os dados apontam que o corpo já está falando há algum tempo. A questão para as empresas é se a gestão está disposta a ouvir antes que o sintoma se converta em afastamento prolongado, perda de talentos ou ruptura silenciosa na confiança. Em um mercado em que qualificar pessoas é caro e demorado, cuidar da saúde emocional pode deixar de ser apenas um benefício e se tornar parte da estratégia de continuidade do negócio.


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