Quem decide primeiro, investe de forma mais inteligente
 

Verdades difíceis

Não há inovação na limpeza no combate ao novo Coronavírus

Todo mundo sabe, ou pelo menos deveria saber à essa altura, que água e sabão matam o novo Coronavírus. Mesmo assim, somos bombardeados diariamente com "inovações" promissoras nos protocolos de reabertura e vídeos de empresas, com ações diversas para conter o vírus e garantir "segurança" no uso dos espaços. Um arsenal "pra inglês ver". Continue lendo que eu vou explicar para vocês.

Vamos então aos fatos, pois contra eles não há argumentos, correto?

Sabe-se que o novo Coronavírus denominado SARS-Cov-2, causador da COVID-19, se transmite principalmente: de pessoa a pessoa por gotículas respiratórias produzidas quando uma pessoa infectada tosse ou espirra; por contato com superfícies ou objetos contaminados, onde o vírus pode ficar por horas ou dias, dependendo do tipo de material (ANVISA, Nota técnica nº 47).

Bom, dessa forma, temos duas ações a serem tomadas: uma ação depende das pessoas - uso de máscaras, limpeza das mãos, distanciamento social, no aparecimento de sintomas ficar em casa etc. Outra ação depende do ambiente, e é aí que eu quero chegar. Vamos falar sobre um assunto de minha especialidade: a limpeza!

Segundo a Associação Brasileira de Limpeza Profissional (Abralimp), que desenvolveu e divulgou gratuitamente excelentes manuais de procedimentos de limpeza para contenção do Coronavírus em vários ambientes, ainda não existem estudos que sinalizem produtos específicos para combater o Coronavírus, contudo, a indicação é, em todos os ambientes, a adoção de medidas mais cuidadosas de higienização, isto é, realizar a limpeza para a remoção de sujidade com produtos detergentes, multiuso ou dois em um (limpeza + desinfecção) e a desinfecção para a eliminação de micro-organismos, com a utilização de produtos desinfetantes de uso geral ou hospitalar, respeitando a diluição e tempo de contato informados no rótulo pelo fabricante (Abralimp - Manual de processos de limpeza durante a pandemia de Covid-19).

Em poucas palavras: o processo é o mesmo de sempre: 1º lavação e 2º desinfecção com qualquer desinfetante (aprovados pela ANVISA), com atenção e destaque na utilização de EPIs (equipamentos de proteção individuais).

Mas o que muda? Muda que agora você precisa limpar as superfícies e ambientes mais vezes ao dia, porque se alguém estiver contaminado e tocar na superfície o vírus pode ser transmitido para outra pessoa. Simples assim!! #soquenao

Vamos retomar as ações e responsabilidades: 1º é o autocuidado, depende de cada um, e isso é cultural, as pessoas não estão habituadas a fazerem isso, então precisamos cuidar mais delas, educando-as e criando espaços que estimulem o autocuidado, com identidades visuais, disponibilidade de produto para assepsia das mãos e de limpeza das superfícies. Sabe por quê? Porque a limpeza não vai dar conta de tudo, não podemos colocar esse fardo na limpeza, não há no mundo tecnologia capaz de resolver essa equação. As pessoas precisam estar cientes das responsabilidades individuais.

Ao invés disso, nós criamos uma "falsa" sensação de segurança, criando dispositivos como túnel de desinfecção de corpo humano (Como pode aplicar uma solução química na pessoa se o vírus sai de dentro dela?!), ressaltando que a Anvisa através da Nota Técnica 51, atenta que, não existe até o momento, produto desinfetante seguro e aprovado para aplicação no corpo humano.

Outro ponto que preciso chamar atenção é para as questões de acessibilidade, na utilização de totens com acionamento pelos pés (que não é acessível obviamente) e o uso de tapetes ou capachos com soluções sanitizante, para limpeza dos pés. Só lembrando que o piso não é a principal fonte de disseminação do vírus (conforme já citado no início), mas o uso dos capachos é ótimo para nós da limpeza. Com o uso dos capachos retemos a maior parte da sujeira, diminuindo a necessidade de limpeza e o desgaste dos revestimentos.

Porém, não podemos nos beneficiar da utilização deste dispositivo, e esquecer que a norma ABNT 9050/2015 de acessibilidade a edificações, mobiliários, espaços e equipamentos urbanos diz que os capachos, tapetes e similares devem ser evitados em rotas acessíveis, quando existentes, devem ser firmemente fixados ao piso, embutidos ou sobrepostos e nivelado de maneira que eventual desnível não exceda 5 mm, as superfícies não podem ter enrugamento e as felpas ou forros não podem prejudicar o deslocamento das pessoas. E a sinalização visual e tátil no piso indica situações de risco e direção, devendo ter alto contraste em relação ao piso. Sem contar ainda, o aumento do risco de queda ao umedecer os pés de quem acessa o espaço, principalmente idosos.

Mas o destaque aqui é a operação desse tapete embebido em solução desinfetante. A maior parte dos produtos químicos tem ação oxidante, ou seja, ele pode danificar o piso (por contato prolongado com a solução) e o calçado de quem por ali pisar. Ele também tem um tempo de ação/efetividade, é necessária a troca da solução e limpeza do tapete com frequência, de acordo com o volume de circulação, um trabalho árduo que você pode substituir por exemplo (modo Bela Gil), com aumento da frequência de limpeza dos pisos com auto lavadoras de piso, que além de garantir a limpeza com eficiência, tem produtividade, valoriza o profissional da limpeza, garante bem estar e ergonomia, e ainda são equipamentos bonitos e chamam a atenção do público para o cuidado que a empresa tem com a limpeza.

Por último e não menos importante, é a promessa de aplicação de químicos que garantem a limpeza por 72 horas, essa é uma interpretação equivocada, da ação do produto de limpeza, existem produtos com ação bacteriostática, ou seja, de forma ilustrativa, se você transportar 10 unidades de bactérias em uma superfície onde não tem esse produto, ele vai seguir seu ciclo de multiplicação e por exemplo (ludicamente), no primeiro minuto de 10 ele sobe para 20, depois de 20 para 40 e assim consequentemente, aumentando a carga bacteriana na superfície.

Com a aplicação dessa solução a única coisa que não acontece é que, durante 72 horas, a carga ficará em 10, o produto impede a multiplicação. Mas isso não se aplica ao novo Coronavírus, ele já é um "bixinho" que só cresce dentro do corpo humano, ou seja, com os sem a aplicação desse produto, no caso do Coronavírus, se a pessoa contaminada tocar em uma superfície e colocar 10 unidades vírus, eles permanecerão em 10 até morrer pelo tempo de acordo com o a densidade da superfície (de 3 a 15 dias). Dessa forma, a aplicação desse produto, não muda nossa vida no caso do Corona, mas para os outros tantos vírus e bactérias ajuda muito.

Bom, agora vamos as sugestões:

Primeiro, como já citado, tornar os ambientes educadores é primordial. Segundo, você gestor que se coloca como preocupado, interessado, que quer realizar vídeos comprometidos, sugiro olhar para o seu processo, ver como suas equipes executam suas tarefas nos bastidores, o tipo de material fornecido para que elas trabalhem, estou falando de ficar um dia inteiro ao lado de um auxiliar de limpeza olhando o como ele faz e buscando implementar melhorias, como a mecanização dos processos rotineiros de limpeza, com propósito de exigir menos esforço físico das pessoas que atuam na limpeza, a partir do uso de equipamentos que apliquem desinfetantes nos espaços, lavadoras e secadoras de piso automáticas, extratoras de vapor para limpeza dos sanitários, varredeiras, aspiradores portáteis, carrinhos funcionais equipados e organizados com os materiais de trabalho, uso de panos de microfibra, utilização de químicos com rótulo ecológico ABNT não nocivos à saúde e ao meio ambiente etc.

Os equipamentos aumentam a produtividade, possibilitando a maior frequência da limpeza exigida nesse período. Já o investimento retorna em maior qualidade, maior satisfação do cliente, menor número de faltas e afastamentos (logo, menor desconto em contratos), menor turnover (logo menores custos com admissões e demissões), colaboradores comprometidos, empoderados e valorizados dentro do processo. Podemos aproveitar esse momento para valorizar aqueles historicamente invisibilizados. Elas e eles foram, são e sempre serão essenciais, que tal os valorizarmos agora?!

Pense no simples, reflita sobre essas soluções, valorize as equipes, se for para investir em soluções comece pelo simples, pelo básico, comece no pequeno, no detalhe. Você pode fazer isso, se for o proprietário da empresa de limpeza, apresentando essas inovações ao seu cliente, diluindo esse investimento em uma contrato mais longo, garantindo sua permanência mais tempo no site (atrelando seu investimento à uma vigência contratual maior), ou se for o cliente, exigindo que o prestador faça melhor, invista em materiais e equipamentos, e claro, remunere ele por isso também, afinal tudo tem um custo, e garanto que este vale muito a pena.

Ahhh e filmar essa operação mecanizada também dá um vídeo lindão para atrair os clientes!

Juntos somos mais fortes.


Mayara Carvalho é Coordenadora de Operações em Limpeza e Sustentabilidade no SESC-SP


Outras referências

ANVISA, Nota técnica nº 34, Recomendações e alertas sobre procedimentos de desinfecção em locais públicos realizados durante a pandemia da COVID-19, de 09 de abril de 2020.

ANVISA, Orientação - Covid 19: só use saneantes regularizados, de 17 de março de 2020.

Fotos: Divulgação

Líderes de audiência

Workplace

O que muda quando diferenças culturais entram no projeto de um escritório

Na implantação da sede brasileira da Yuwell, Henrique Tso, gerente de Recursos Humanos para a América Latina, precisou conciliar referências da matriz chinesa com custos, fornecedores, prazos e formas de trabalho locais

Mercado

De Itaú a Amazon: quem ocupa os maiores escritórios de São Paulo

Itaú lidera a lista com 91,4 mil m² no Esther Towers. O ranking mostra onde estão as grandes empresas e por que áreas corporativas extensas se tornaram mais disputadas

Operações

Seu prédio usa água potável onde não precisa?

Nova resolução nacional define critérios para o reúso não potável e recoloca em debate onde essa água pode ser usada nos edifícios

Operações

Mercado Livre terá a maior locação de galpão do Brasil. Como manter 464 mil m²?

O novo complexo próximo a Viracopos ajuda a explicar por que, em ativos logísticos de grande escala, manutenção deixa de ser uma lista de ordens de serviço e passa a ser gestão de risco operacional

Mercado

Itaú ocupa 91 mil m² e recoloca o longo prazo no centro da estratégia imobiliária

A maior locação corporativa já registrada no segmento especulativo no Brasil ocorre quando políticas híbridas amadurecem e grandes áreas de alto padrão ficam mais escassas em São Paulo

Operações

Microsoft trata água no próprio campus e reduz dependência da rede pública

Projeto em Mountain View integra reúso, águas pluviais e operação predial e mostra como a resiliência hídrica começa a entrar no desenho dos grandes campus corporativos

Sugestões da Redação

Mercado

Real Estate em 2026. O que orienta a escolha entre ocupar, adaptar ou investir?

Relatório da JLL mostra como a redução da oferta de novos empreendimentos valoriza ativos de alta qualidade no mercado imobiliário global

Outside Work

Em 2026, sua casa terá um "CPF". Entenda o que é o Cadastro Imobiliário Brasileiro e como ele afe...

Um novo cadastro nacional vai reorganizar a forma como o Estado enxerga os imóveis no Brasil. A partir de 2026, essa mudança começa a impactar impostos, transações e a gestão patrimonial

Revista InfraFM

Quando saúde mental, liderança e Workplace viram estratégia de negócio

De Harvard a Oxford, passando por CEOs que já transformam lucro em bem-estar: Mind Summit mostra que o futuro das organizações não é sobre espaços para trabalhar, e sim sobre espaços que libertam o melhor das pessoas. Facilities & Workplace entram no centro da estratégia corporativa

Revista InfraFM

O engenheiro que também aprendeu a cuidar de prédios vivos

A arquitetura humana e tecnológica dos campi do Insper integra educação, convivência e networking

Revista InfraFM

O futuro já começou. Quem vai gerenciá-lo?

Projetando a sociedade do futuro para as nossas vidas

Revista InfraFM

Azul por dentro da operação que faz o Brasil voar

Infraestrutura que trata o avião como cliente e formação que sustenta a excelência operacional da companhia aérea