Clima extremo, riscos financeiros e falta de mão de obra desafiarão a construção até 2030

Estudo da Zurich mostra que ameaças surgem antes do início das obras, afetam custos, prazos e financiamentos e exigem resiliência desde o planejamento dos projetos

Por Léa Lobo

Clima extremo, riscos financeiros e falta de mão de obra desafiarão a construção até 2030

Sven Feistel, diretor executivo de seguros corporativos e subscrição de ramos elementares na Zurich Seguros


Eventos climáticos extremos, vulnerabilidades dos mercados financeiros e limitações do mercado de trabalho serão os riscos mais severos para a construção global nos próximos cinco anos. A conclusão é do estudo Beyond 2030: The Future of Construction, produzido pelo Zurich Insurance Group. O relatório mostra que essas ameaças, além de interligadas, surgem antes mesmo do início das obras e podem comprometer cronogramas, custos, financiamento e a viabilidade dos projetos.

O levantamento ouviu 31 especialistas em subscrição, sinistros, engenharia de riscos e construção. Em uma escala de severidade de 1 a 7, os eventos climáticos extremos e os desastres naturais lideraram o ranking, com 6,2 pontos, seguidos pelas vulnerabilidades financeiras, com 5,7, e pelas dinâmicas do mercado de trabalho, com 5,6.

Fenômenos climáticos mais intensos já provocam atrasos e danos em obras. Ao mesmo tempo, o mercado financeiro demonstra menor tolerância a imprevistos, enquanto a escassez de profissionais qualificados limita a capacidade de execução dos projetos. Esses fatores também podem desencadear efeitos em cadeia. Um evento climático, por exemplo, pode interromper o fornecimento de materiais, elevar custos, atrasar entregas e ampliar a exposição financeira do empreendimento. “Nossos clientes estão entregando projetos cada vez mais complexos em um ambiente de risco mais volátil e sob prazos mais apertados. Se um projeto não for segurável, ele não será financiado. Por isso, incorporar resiliência ao desenho, com a participação das seguradoras desde o início, é fundamental”, afirma Kelly Kinzer, Global Head of Construction & Surety da Zurich.

Clima extremo, riscos financeiros e falta de mão de obra desafiarão a construção até 2030

Foto: Divulgação


O relatório também chama a atenção para a interrupção de infraestruturas e sistemas críticos. Embora ocupe a sexta posição em severidade, esse é o risco mais conectado entre os analisados. Falhas em energia, água, logística, sistemas digitais ou equipamentos essenciais podem comprometer projetos e portfólios inteiros. A exposição é ainda maior em empreendimentos como data centers, sistemas de energia, unidades de manufatura avançada e instalações de saúde. Nesses casos, a viabilidade depende do acesso antecipado a energia, água, capacidade de rede, licenças e equipamentos especializados.

No Brasil, esses desafios já fazem parte da agenda da construção. A segunda edição do Termômetro do Setor da Construção Civil de 2025, elaborado pela Falconi com apoio do Ecossistema Sienge, mostra que 71% dos profissionais de construtoras e incorporadoras apontam a falta de mão de obra qualificada como um dos fatores que mais afetam os negócios. A elevação das taxas de juros foi citada por 48% dos participantes e o custo de materiais e serviços, por 37%.

A digitalização pode ajudar a enfrentar parte desses problemas. Tecnologias como BIM (Building Information Modeling), inteligência artificial e sistemas de gestão ampliam a produtividade e o controle, mas também exigem profissionais qualificados e novas competências.

Os riscos climáticos completam esse cenário. Segundo o relatório Estado do Clima, Extremos de Clima e Desastres no Brasil em 2025, do Cemaden, os eventos extremos provocaram prejuízos econômicos de aproximadamente R$ 3,9 bilhões e afetaram diretamente mais de 330 mil pessoas no país em 2025.

Para a Zurich Seguros, o cenário reforça a necessidade de considerar a resiliência desde o planejamento, incluindo decisões sobre localização, fornecedores, cronogramas, exposição climática, financiamento e seguros. “O maior desafio atual da infraestrutura brasileira não parece ser a falta de projetos, mas a capacidade de executá-los com previsibilidade de prazo, custo e risco. A gestão de riscos precisa fazer parte da viabilidade do empreendimento desde o início”, afirma Sven Feistel, diretor executivo de Seguros Corporativos e Subscrição de Ramos Elementares da Zurich Seguros.

Seguros de engenharia e garantia, responsabilidade civil profissional, D&O, proteção contra riscos cibernéticos e serviços de engenharia de riscos podem apoiar a identificação, mitigação e transferência dessas exposições. As condições de cobertura também funcionam como sinais antecipados de fragilidades técnicas, financeiras ou operacionais. Em um setor pressionado por clima, capital, tecnologia e infraestrutura, a resiliência deixa de ser apenas desejável e passa a ser condição para que os projetos sejam financiados, segurados e entregues com maior previsibilidade.

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