Por que prestadores de serviço estão ficando de fora dos contratos públicos e privados

Sustentabilidade, governança e impacto social deixaram de ser discurso e viraram critério de corte.

Por Mateus Murozaki

Por que prestadores de serviço estão ficando de fora dos contratos públicos e privados

Foto: Canva.com/Weedezign

Enquanto desastres naturais expõem a urgência da crise climática e as mudanças sociais cobram mais ética e transparência do setor produtivo, uma pergunta se impõe: o que o setor de serviços está fazendo com tudo isso?

Foi essa provocação — direta, sem floreios — que guiou a palestra de Lívio Giosa, presidente do Conselho Nacional de Defesa Ambiental e diretor de Políticas Ambientais da Cebrasse, no Fórum de Sustentabilidade do Setor de Serviços, realizado em São Paulo.

Em sua fala, Giosa desmontou a ideia de que ESG (sigla para Ambiental, Social e Governança) é apenas uma tendência corporativa. Para ele, trata-se de um novo contrato da sociedade com o planeta — um pacto que exige atitude, não PowerPoint. “A sustentabilidade não é mais um diferencial. É sobrevivência. Ou você se adapta ou sai do jogo”, afirmou.

ESG é prática, não rótulo

Segundo o palestrante, a lógica do ESG precisa estar presente no dia a dia de qualquer empresa — inclusive (e principalmente) nos serviços. Não basta dizer que adota boas práticas. É preciso provar. Com metas, indicadores, relatórios, ações reais.

Na dimensão ambiental, isso significa reduzir emissões, pensar o consumo de água e energia, rever a forma como resíduos são descartados e promover ações simples, mas contínuas — como a substituição de lâmpadas, sensores de presença, revisão de climatização e estímulo a caronas e transportes coletivos.

No eixo social, a responsabilidade está em garantir diversidade, igualdade de oportunidades, segurança do trabalho e uma relação transparente com a comunidade. “Se sua empresa presta serviços em um bairro e ninguém da região é contratado, há algo errado. ESG também é inclusão”, alertou.

E na governança, Giosa destacou a importância de controles internos, código de conduta, transparência fiscal, ética nas relações e atenção à Lei Geral de Proteção de Dados. “A cultura da integridade deixou de ser opcional. O mercado já está punindo quem não entrega.”

ESG como filtro de contratos e financiamentos

Um dos pontos centrais da fala foi o impacto real das práticas ESG nos negócios. Giosa lembrou que empresas que não demonstram ações claras nessa agenda já estão perdendo contratos. Grandes contratantes passaram a usar critérios ESG como filtros de seleção — e prestadores que não atendem são excluídos sem cerimônia.

Além disso, ele apontou o crescimento de linhas de crédito e financiamentos voltados a projetos sustentáveis, especialmente para empresas com bons indicadores. “ESG também é acesso a capital. Mas só para quem leva a pauta a sério.”

A conta do planeta chegou — e o setor de serviços tem papel direto

Com uma fala marcada por dados e provocações, Giosa lembrou que o setor de serviços, embora menos intensivo em emissões que a indústria, tem uma responsabilidade imensa por movimentar milhões de pessoas, estruturas e operações todos os dias. Desde um restaurante até uma empresa de facilities, todos geram impacto — e todos precisam medir e reduzir sua pegada.

“A dona Maria que frita pastel emite carbono. O bar da esquina emite carbono. Todos estamos nesse jogo”, disse, em tom direto. E foi além: “A natureza não perdoa. Deus pode perdoar, o homem também. A natureza, não.”

A agenda não é do futuro. É agora.

Ao final, Giosa fez um chamado claro: agir agora, com foco e responsabilidade, antes que os impactos se tornem irreversíveis — tanto para o planeta quanto para os negócios. “Quem ainda enxerga sustentabilidade como custo, não entendeu nada. Estamos falando de valor, perenidade e reputação.”

Para quem atua em gestão de serviços, operações ou infraestrutura, o recado está dado: ESG deixou de ser uma sigla bonita na apresentação comercial. Virou requisito mínimo para continuar relevante.



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