Entre o discurso e a decisão sobre inovação e contratação em Facility Services

Estudo em Portugal revela que preço e relação ainda pesam mais que tecnologia e sustentabilidade

Por Léa Lobo

Entre o discurso e a decisão sobre inovação e contratação em Facility Services

Foto: Canva.com/ Milos Dimic


Na teoria, a inovação é prioridade. Na prática, nem tanto. Essa é a principal conclusão do estudo “Inovação em Facility Services”, elaborado pela APFM (Associação Portuguesa de Facility Management), que ouviu 83 profissionais de empresas fornecedoras e contratantes entre abril e maio de 2024. O objetivo? Entender como as decisões de compra são influenciadas por critérios como preço, relacionamento, tecnologia e sustentabilidade — e até que ponto a inovação é, de fato, um diferencial competitivo no setor.

O levantamento joga luz sobre uma dicotomia recorrente: embora tanto prestadores quanto clientes reconheçam a importância de inovar, os critérios considerados mais relevantes na hora da contratação ainda são os mais tradicionais. Para os prestadores, o fator mais valorizado pelos clientes seria o preço (40,1%), seguido pela relação comercial e, só depois, pela tecnologia. Já do lado dos contratantes, o relacionamento aparece em primeiro lugar (24,4%), com preço e formação na sequência.

A pergunta que incomoda é a inovação se compra ou se constrói?

A pesquisa propõe uma provocação. Ao escolher entre um fornecedor reconhecidamente inovador ou outro mais tradicional, mas disposto a evoluir gradualmente, qual seria a melhor aposta? O estudo não oferece uma resposta definitiva, mas evidencia que os modelos baseados na colaboração — e não apenas na transferência de responsabilidade — tendem a gerar melhores resultados. Segundo os dados, 90,6% dos clientes acreditam que a inovação deve surgir da cooperação entre contratante e prestador. Já entre os fornecedores, ainda há quem veja a inovação como um dever exclusivo de sua parte.

Formação, assiduidade e o fator humano

Outro achado relevante é a subvalorização da formação técnica e comportamental. Embora os clientes reconheçam a importância da qualificação (14,4%), os prestadores acreditam que esse item pesa pouco nas decisões (apenas 7,4%). A baixa rotatividade das equipes; essencial para garantir continuidade, especialização e eficiência; também tem um peso modesto, o que revela um desalinhamento entre a lógica operacional e os critérios comerciais.

Inovar... com moderação

Quando questionados sobre os motivadores da inovação, tanto clientes quanto prestadores afirmaram buscar vantagem competitiva, e não apenas seguir o mercado. No entanto, o medo do custo ainda é um freio importante. Para 69% dos fornecedores, o maior obstáculo para inovar é o receio do cliente de pagar mais. Já os contratantes dividem essa preocupação entre custo (47,6%) e risco (33,3%).

Ou seja, todos querem os benefícios da inovação — mas de preferência sem pagar mais, sem correr riscos e sem sair da zona de conforto. Uma equação difícil.

Segmentos mais abertos à inovação?

Quando se trata de serviços específicos, como limpeza, alimentação, manutenção e segurança, a disposição para pagar mais por inovação ainda é tímida. Apenas 26% dos clientes estariam dispostos a investir mais em manutenção inovadora, e menos de 10% topariam pagar a mais por soluções em limpeza, alimentação ou segurança. Isso sugere que a inovação, para ser valorizada, precisa provar seu valor em eficiência operacional, ou seja, entregar mais gastando menos.

Um caminho ainda em construção

A boa notícia é que há espaço (e vontade) para mudar. O estudo conclui que a inovação em Facility Services passa por quatro pilares: uso inteligente de tecnologia, formação contínua, relações sólidas e compromisso com a sustentabilidade. E alerta: empresas que conseguirem equilibrar eficiência, inovação e responsabilidade social terão vantagem competitiva significativa.

Em um mercado cada vez mais exigente, sair do lugar comum não é mais luxo é estratégia. A inovação pode até não ser (ainda) o principal critério de escolha, mas quem liderar esse movimento estará melhor preparado para os desafios do futuro.

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