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Produtividade passa a ser medida pela vigilância digital no trabalho?

O monitoramento de métricas digitais promete eficiência, mas traz dilemas sobre confiança, cultura e engajamento nas organizações

Produtividade sob vigilância: até onde os dados digitais devem definir o futuro do trabalho?

Imagem: Canva.com/hanieriani


A decisão do Itaú de desligar cerca de mil colaboradores após seis meses de monitoramento digital de produtividade colocou os holofotes sobre uma prática cada vez mais comum: usar dados de dispositivos corporativos para definir rumos estratégicos. Entre os indicadores avaliados estavam cliques no computador, tempo de atividade em aplicativos, abas abertas e tarefas registradas.

O episódio brasileiro ecoa no cenário internacional. Em 2024, o Wells Fargo, nos Estados Unidos, demitiu funcionários acusados de simular atividade online durante o home office. Na Austrália, o baixo volume de interações digitais serviu como justificativa formal para desligar uma profissional. Casos assim mostram que a análise de performance deixou de depender apenas de gestores diretos ou de metas de negócio: agora os números brutos extraídos das máquinas têm peso decisivo.

A digitalização da performance

O monitoramento não se limita a Recursos Humanos. Em Facilities Management e operações corporativas, softwares já cruzam dados de uso de espaço, login em sistemas, consumo de energia e até métricas de bem-estar. O objetivo declarado é otimizar fluxos, identificar gargalos e projetar eficiência em escala.

Essa mudança, porém, abre dilemas estratégicos para líderes:

- Eficiência vs. confiança – até que ponto os indicadores substituem a autonomia e a responsabilidade individual?

- Transparência – os colaboradores conhecem os critérios usados e como seus dados são interpretados?

- Impacto cultural – decisões baseadas apenas em métricas moldam não só a rotina, mas também a percepção de pertencimento.

Quando controle vira encenação

Entidades como a IFMA e análises do FacilitiesNet já alertaram que controles excessivos podem criar uma “cultura da encenação”, em que profissionais gastam energia para parecer produtivos em vez de gerar resultados relevantes. O caso Wells Fargo ilustra isso: ao tentar evitar improdutividade, o banco acabou incentivando práticas artificiais para driblar o sistema.

Por outro lado, há ganhos objetivos. Monitoramentos bem estruturados ajudam a redistribuir tarefas, ajustar processos internos e dar visibilidade a gargalos invisíveis em grandes estruturas. Um gestor de facilities, por exemplo, pode usar relatórios de tempo de resposta em chamados para reorganizar equipes ou justificar investimentos em novas ferramentas.

Qual cultura queremos construir?

O avanço do monitoramento digital não deve ser lido apenas como tendência de controle, mas como parte da redefinição do espaço de trabalho. Para além da eficiência, está em jogo a cultura organizacional que as empresas querem consolidar.

Se por um lado a análise de dados traz clareza, por outro ela não captura dimensões intangíveis, como colaboração, criatividade e impacto indireto nas equipes. O desafio para líderes de FM, RH e operações é encontrar o equilíbrio entre números e sensibilidade humana.

Em última instância, a questão não é se os dados serão usado, pois isso já é irreversível. O ponto central é como eles serão interpretados e a serviço de que cultura corporativa estarão.


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